Todos os dias, ao ligarmos a TV ou pegarmos um jornal, certamente existirá um espaço para as notícias policiais. Sejam em programas voltados ao sensacionalismo ou em jornais com cadernos que se torcer, sai sangue, a cobertura de acidentes, assassinatos e toda a sorte de assuntos tratados pela polícia, acaba por despertar uma curiosidade mórbida na população.

E para suprir a demanda, profissionais saem pelas ruas, olhando a morte como se fosse apenas mais um dia de trabalho. Mas quem são essas pessoas? É mais ou menos isso que O Abutre tenta mostrar.

Faturando com a desgraça

Em O Abutre, Jake Gyllenhaal é Lou, um sujeito que vive de pequenos bicos e roubando metal para vender para uma fábrica. Um dia, ele nota um acidente grave no meio da estrada e para para ver. Logo em seguida, uma equipe de cinegrafistas surge na área, filmando todo o resgate, com closes da vítima e dos policiais que a salvaram. É ali que ele vê uma oportunidade de carreira.

Com uma câmera na mão e acesso ao rádio da polícia, Lou começa a perseguir crimes para filmar e vender o material para emissoras de TV, famintas por novas desgraças, já que elas dão audiência.

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Apesar de o filme não assumir com todas as letras, O Abutre é uma bela crítica a esse estilo de “jornalismo”, que não chega a informar, mas sim, amedrontar o espectador, perpetuando estereótipos e condenando pessoas do conforto de seus lares.

A crítica já começa pelo próprio Lou, um sujeito que não tem a miníma noção de como tratar um ser humano com respeito, sempre vendo tudo como uma maneira de se dar bem, custe o que custar. Talvez por isso, ele consiga agir com frieza perante um acidente, em que em vez de considerar o bem estar da vítima, a arrasta para uma área mais iluminada para conseguir um take melhor para vender.

O filme também faz questão de mostrar que o problema não está apenas em Lou, já que outros profissionais da área também se mostram como pessoas horríveis, sem o menor apreço pela vida humana, apenas preocupados em ser o primeiro a filmar a desgraça.

Outro elemento criticado é o das emissoras que transmitem esse tipo de material, além de colocar em cheque a credibilidade de muitas redações, que passam por cima da ética e do bom senso para conseguir um furo ou uma vantagem contr suas concorrentes.

Gyllenhall boladíssimo

Só que O Abutre poderia se perder com facilidade caso o personagem principal não fosse interpretado da maneira certa. Pensando nisso, Jake Gyllenhaal mostra uma habilidade incrível em não só parecer interessante, como também ser mostrado como uma pessoa fria, calculista e completamente execrável em praticamente todas as ações que são mostradas.

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A natureza manipulativa de Lou é importantíssima durante o filme, e caso o papel tivesse caído no colo de um ator que não respeitasse tanto o material, poderia parecer caricata, perdendo grande parte da força do longa.

Um filme pesado e tenso

O Abutre tem como trunfo o fato de não mostrar em momento algum qual será o seu endgame. Enquanto vários longas mostram já nos primeiros minutos qual será a sua estrutura (apresenta personagens e conflito inicial, superação do conflito inicial, problema e resolução ou não do mesmo para finalizar a trama), O Abutre deixa o espectador no suspense até seus últimos frames.

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Por causa disso, cada cena apresenta mais profundidade do que realmente tem, tornando o filme pesado e, em alguns momentos, puxado. Isso significa que o ritmo do filme pode contrariar algumas pessoas, que podem julgá-lo como chato ou “parado demais’.

Tem necessidade disso tudo?

nightcrawler_ver4_xlgAo final de O Abutre, fica a dúvida sobre qual o tipo de pessoa que corre atrás de acidentes e desgraças só pra ganhar a vida. Muitos afirmaram que é um trabalho jornalístico como qualquer outro, mas o próprio nome dado ao longa demonstra bem o que esse tipo de profissional acaba se tornando, mesmo que contra sua própria vontade.

Fazendo com que você questione se é realmente preciso mostrar um acidente de trânsito em que alguém foi jogado pra fora do carro, já que isso não apresenta nenhuma informação importante ao público a não ser “olha alguém morrendo”, o filme acaba por deixar subtendido que esse estilo de jornalismo serve muito mais para “entreter” de maneira mórbida do que realmente informar o espectador.

Com uma atuação impecável do ator principal e com uma trama que levanta esse tipo de questões, O Abutre se mostra uma bela surpresa para os cinemas do final de 2014.

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