The Boys, da Amazon, é uma adaptação imperfeita — e é melhor por isso

A série muda personagens e arcos narrativos, o que só enriquece o universo de Garth Ennis

The Boys da Amazon Prime é diferente da HQ original, mas isso só a torna ainda mais interessante. Criada por Garth Ennis e Darick Robertson, a HQ não é tão conhecida do público quanto trabalhos como Preacher (Ennis) ou Transmetropolitan (Robertson), mas ganhou notoriedade suficiente para virar uma série da Amazon Prime, lançada em 26 de julho. A narrativa mostra um universo dominado por super-heróis que, em sua essência, são terrivelmente humanos — no pior sentido que essa palavra poderia ter.

The Boys parte da premissa que ter poder absoluto significa se corromper de forma absoluta: podendo fazer o que ninguém mais faz, os seres superpoderosos não precisam lidar com consequências ou preocupações banais. Eles são verdadeiros deuses andando pela terra, que não precisam se preocupar em destruir algumas “formigas” (no caso, pessoas normais), seja por acidente ou diversão.

É justamente uma dessas “formigas” que desencadeia os eventos que vemos tanto nos quadrinhos quanto na série. Após ver sua namorada morta por um dos principais super-heróis desse universo, Hughie decide partir em uma jornada de vingança após ser convencido por Butcher, um ex-fuzileiro naval britânico, de que a mera existência dos heróis já é uma corrupção.

É logo após esse ponto inicial que os eventos do The Boys original diferem muito daqueles que vemos na adaptação disponível no Amazon Prime. A série de televisão não somente muda o status do grupo, como altera drasticamente arcos narrativos inteiros e até mesmo a personalidade dos “heróis” e “vilões” desse universo.

Visão menos cínica

O The Boys original é Garth Ennis destilando da forma mais cínica possível todo seu veneno sobre o mundo das histórias em quadrinhos, tanto no que diz respeito às figuras que apresenta quanto à estrutura corporativa do meio. Tudo era tão pesado e crítico que a série foi descartada pelo selo Wildstorm (da DC) e só teve continuidade na Dynamite porque os executivos da empresa ficaram incomodados com o nível de acidez da obra.

The Boys na HQ

A adaptação mantém parte desse cinismo, mas dá a abertura para o desenvolvimento dramático de personagens que, na HQ, são bidimensionais. Nelas, não somente os membros dos Sete (a Liga da Justiça reimaginada) não ligam para o que acontece no mundo, como são verdadeiros psicopatas com os quais é impossível criar qualquer empatia — assim como Butcher, você só quer que eles se ferrem da maneira mais cruel possível.

Ao abandonar um tanto essa separação entre “preto e branco” da obra original, a série da Amazon Prime sem dúvida muda o tom da história, mas, em minha opinião, consegue tornar as coisas mais interessantes. O principal beneficiado com isso é o Homelander, que, de um maníaco homicida descontrolado, passa a ser um personagem que combina um narcisismo sem limites com uma grande insegurança e passa a agir de maneira mais calculista do que em sua versão original, o que só o torna mais perigoso.

Mais “inspirado” do que “adaptado”

Caso você assista a série da Amazon e use isso como motivação para ler os quadrinhos, fica o alerta: eles são bem mais brutais e cínicos do que a adaptação de TV. E eu prefiro que seja assim — em vez de replicar somente algo que eu conhecia, a série conseguiu reimaginar personagens e dar a eles camadas que fazem eles funcionarem melhor na tela, num universo em que uma simples transposição das HQs não bastaria.

O Homelander

Confesso que, ultimamente, tenho preferido adaptações que seguem exatamente esse caminho. Mais do que reapresentar algo que eu já conheço e sei bem os rumos em um “pacote” diferente, quero ver como autores conseguem trabalhar com os mesmos temas e personagens de formas diferentes e mais coerentes aos meios nos quais eles serão vinculados — e, se tudo der errado, a obra original continua ali, intacta, para a admiração dos fãs.

O que eu quero dizer com tudo isso? É que tanto The Boys — a série — quanto The Boys — os quadrinhos — são ótimos, mas devem ser encarados como produtos diferentes que compartilham as mesmas premissas. Ao nos dar uma visão diferente do universo, a Amazon Prime engradeceu a obra e permitiu ter mais dela, fazendo com que valha a pena assistir a adaptação e descobrir nela algo novo, não somente uma nova encenação de algo que já é conhecido.

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