Todo mundo, em algum momento da infância ou adolescência, sofreu alguma forma de bullying. Uns mais que os outros, mas a chance de você ter passado por esses períodos sem ninguém enchendo o saco por você ser diferente é miníma.

Só que, em alguns casos, a parada se torna doentia, afetando profundamente as vítimas de um monte de mocorongo. De um jeito bem exagerado, a história de Carrie – A Estranha (do original, do remake, do livro e sei lá mais o que) é uma espécie de cautionary tale, um aviso de que “o que vai, volta”. Só que, nesse caso, volta com uns poderes maneiros e matando geral.

Chloe Moretz

A nova Carrie, interpretada pela Chloe Moretz, é uma adolescente isolada, parte por causa de sua criação com uma mãe religiosa e louca (interpretada pela Juliane Moore), e outra por não fazer o tipinho da “galera descolada”. Você já viu filmes sobre colégio nos Estados Unidos, sabe como funciona.

Um dia, ela tem a sua primeira menstruação no meio do vestiário feminino, não faz ideia do que está acontecendo e vira motivo de chacota pra um monte de menina bonitinha, mas que os pais não souberam criar direito.

O resto da história se desenvolve do jeito que você já deve imaginar: uma menina popular e seu namorado resolvem que tudo aquilo foi errado e querem compensar tudo levando a Carrie para o baile de formatura, outras querem se vingar, rola toda a treta e UNLIMITED POWWWWWEEEEEEER! E talvez essa maneira como as coisas são contadas seja o maior defeito do filme.

Qual é a necessidade disso, gente?

A chance de você ter assistido a Carrie, A Estranha de 1976 é bem grande e, se você não o fez, certamente já viu a cena “principal” do filme. Sissy Spacek toda feliz e um balde de sangue caindo na cabeça. Se você viu qualquer arte do remake, sabe exatamente o que vai acontecer e como as coisas vão se desenrolar e isso se torna um problema para o filme.

Desde as primeiras cenas, o seu cérebro entra em modo “contagem regressiva pra merda”. Talvez isso funcione para algumas pessoas, mas, devo dizer que isso me incomodou profundamente por causa do jeito que as coisas são apresentadas e a maneira que o personagem da Carrie é tratado ao longo do filme.

Chloe Moretz;Judy Greer;Portia Doubleday;Gabriella Wilde

Sabe quando a galera ia assistir A Paixão de Cristo e ficava duas horas vendo um cara que não fez absolutamente nada tomar porrada feito irmãozinho pequeno jogando Mortal Kombat? Carrie – A Estranha me fez ter a mesma sensação, já que, em momento algum, ela faz algo de ruim pra qualquer uma das pessoas envolvidas.

O fato de a Chloe Moretz finalmente parecer uma adolescente da sua idade, em vez de uma versão “madura demais” ajuda nesse quesito. Se ela dá porrada em geral em Kick-Ass ou é fodona em Let Me In, em Carrie ela é frágil e vulnerável, por mais que tenha uns poderes loucos (já falo sobre isso). E ela é uma menina bonita. Impossível não ter UM filho de uma cadela que falaria “aquela mina é bizarrinha mas pô, me interessei, vou falar com ela”. A verdade é que eu passei todo o tempo do filme querendo dar uma voadora no peito de 98% dos personagens.

Mãe louca e “vou ser jedi”

Apesar de os vilões mais fáceis de se identificar sejam alguns adolescentes da escola, talvez a vilã mais forte do filme seja a mãe da Carrie, interpretada pela Juliane Moore. O filme começa com isso sendo bem traçado, com ela sendo uma religiosa fanática e completamente louca.

Muita gente vai falar que é uma atuação exagerada e tudo mais, mas eu gosto da Juliane Moore e, com 5 minutos de filme, eu queria que ela tropeçasse numa escada e caísse de pescoço num degrau. É ela a possível responsável por toda a merda que acontece com a pobre Carrie, que desde pequena foi criada numa casa em não pode ser ela mesma e é punida apenas por ser humana.

Julianne Moore stars in Metro-Goldwyn-Mayer Pictures and Screen Gems' CARRIE.

E as coisas só ficam mais graves quando ela descobre ter poderes. Veja bem, apesar de a maneira como ela aprende sobre seus poderes ser inocente e, até mesmo compreensível, não deixar de parecer um pouco idiota alguém descobrir que tem as piras de mover coisas com a mente ao procurar “special powers” no Google e ver uns vídeos de uns malucos empurrando livros com a mente no YouTube.

Violência “só porque eu posso”

E então chegamos no ponto que provavelmente fez alguém pensar “Esse remake de Carrie vai bombar”. O filme é bem mais violento do que o original. Na hora que a “água bate na bunda”, rola umas paradas meio gráficas que você fica meio “ok, então tá aí o motivo do remake”.

Apesar de você passar o filme inteiro pensando “Eu quero ver essa molecada sofrendo no final”, a violência das mortes deles me pareceu pouco. Sim, isso pode ser errado, mas o fato de tudo ser violento demais e rápido me fez pensar “Poderia ter feito mais”.

1146139 - CARRIE

Então, quando o filme terminou, além de incomodar com aquele calvário todo, todo aquele bullying (que acontece mesmo nos EUA), a impressão que fica é “esse filme foi realmente necessário?”. A galera precisa ganhar seus milhões, pagar suas mansões e tudo mais, mas, o esforço pra fazer esse remake não poderia ter sido usado em outra coisa?

Isso poderia ser falado sobre vários outros remakes, mas esse não traz nada de novo, uma maneira diferente de contar a história. Se você sabe a história do original ou do livro, tá tudo ali, mas com atores atuais, uns efeitos melhores e um pouco mais de violência.

Isso faz de Carrie – A Estranha um filme ruim? Não, mas também não faz dele algo bom. Se um dia você o ver disponível em um Netflix da vida ou na TV, não ficará ofendido e pensar “Nossa, que horrível”, mas também não é o tipo de filme que eu conseguiria falar para você assistir no cinema. Fica pra próxima.

Sem mais artigos