Bidu Caminhos

Review — Bidu: Caminhos

Todo mundo já passou por algum momento difícil na vida. Aqueles dias de cão em que as esperanças vão embora e que você se sente perdido e sozinho. E como você encara essas dificuldades? Como uma obra do acaso ou um mal inevitável? Há ainda quem acredite ser um teste divino. Eu, por outro lado, prefiro ver percalços como um referencial: a gente apanha para aprender a valorizar as horas boas — um ponto de vista que Bidu: Caminhos compartilha comigo.

É exatamente essa a mensagem que o novo álbum da iniciativa Graphic MSP traz. Protagonizada pelo cachorro azul, a história trata exatamente dessa ideia de que as coisas sempre podem melhorar e que a calmaria sempre vem após a tempestade. E, nas mãos da dupla Eduardo Damasceno e Luís Felipe Garrocho, essa lição deixa de ser algo meramente piegas para se tornar algo sensível e extremamente envolvente.

Também pudera. A dupla já é conhecida pela sutileza de seus roteiros e pela beleza de sua arte, como pode ser visto em Achados e Perdidos e Cosmonauta Cosmo. Com isso, não é difícil entender por que Caminhos desponta já como um dos melhores — quiçá o melhor — de toda a coleção.

A tempestade

Mas, com Bidu: Caminhos, os autores tiveram de encarar uma enorme responsabilidade. Além de dar continuidade a um projeto de sucesso, o desafio de apresentar uma releitura do primeiro personagem criado por Mauricio de Sousa e mascote da editora era enorme. Ainda assim, a pressão parece não ter incomodado a dupla.

Bidu Caminhos

E parte disso vem exatamente pelo fato de Bidu não ter o mesmo apelo de uma Mônica ou Chico Bento. Sem esse “peso”, eles tiveram muito mais liberdade para criar e experimentar coisas um pouco diferentes daquilo que estamos acostumados a ver.

A trama é bem simples, focando nos perrengues do cãozinho quando ele ainda vivia nas ruas até seu encontro com aquele que será seu melhor amigo. No entanto, o final aqui pouco importa, já que o que é realmente importante é o que acontece até lá — por mais que a jornada não seja nada boa. E Caminhos trata exatamente da importância desses momentos ruins como uma preparação para aquilo de bom que está por vir.

Essa mensagem vai além do texto e das situações que o personagem se encontra. A própria arte traz muito dessa ideia, já que boa parte da história se passa durante uma tempestade no Bairro do Limoeiro. E ela não está ali por acaso, representando exatamente esse período mais difícil na vida do cachorro.

É uma metáfora muito bonita, principalmente quando você percebe que a história é exatamente sobre se encontrar em meio à tempestade. A página dupla em que Bidu contempla o vazio do temporal é uma das coisas mais lindas da graphic novel exatamente por mostrar o sentimento que muitos de nós encaramos em momentos assim. Tudo é enorme, mas silencioso e sem vida.

Bidu Caminhos

A partir disso é que ele passa a perceber que não há como passar por essa tormenta — seja a literal ou a figurada — sem a ajuda de amigos. E o curioso é que a primeira “ajuda” que surge é exatamente de uma pedra — em uma bela referência à estranha personagem dos gibis. É por isso que, apesar de não fazer sentido um cachorro já molhado da chuva se esconder de um banho de poça, esse quadro é tão importante. Às vezes, uma pedra em seu caminho pode ser o auxílio que você precisava.

É esse tipo de sensibilidade narrativa que marca o trabalho de Damasceno e Garrocho. Quem conhece seus trabalhos anteriores vai reconhecer muito do estilo dos autores na hora de tratar temas como a solidão e, principalmente, em como retratar isso de maneira tão impactante.

Sem palavras, mas com muito a dizer

Outro ponto que chama muito a atenção na narrativa de Bidu: Caminhos são os diálogos. Os autores utilizam um recurso às vezes pouco explorado nas histórias em quadrinhos para representar essa interação entre os personagens animais. E, apesar de não termos um Bidu falante como nos gibis clássicos, isso não quer dizer que ele não consiga se comunicar.

Bidu Caminhos

E as palavras são realmente desnecessárias por aqui, já que a ideia é o que realmente importa. Assim, em vez de uma conversa escrita, tudo é apresentado a partir de desenhos nos balões. É um uso do aspecto não-verbal das HQs bem simples, mas que funciona exatamente por mostrar que você não precisa dizer nada para expor suas intenções.

Além disso, esses diálogos visuais também dizem muito sobre como cada personagem vê o mundo e os outros — algumas delas que seriam bem difíceis de traduzir em palavras. É algo que você bate o olho e sabe o que está acontecendo.

Bidu Caminhos

O mesmo acontece com as onomatopeias, que são bem mais do que representações dos sons. Elas fazem parte da construção da cena, seja dando a ideia de movimento ou esforço, ou evidenciando algo que passaria despercebido para muitos. É algo bem sutil, que faz muita diferença.

Esperando o fim da chuva

Bidu pode nunca ter sido o personagem favorito de nenhuma criança, mas se revela o protagonista de uma das melhores edições do Graphic MSP. Caminhos dá início a essa nova fase do projeto muito bem e vai ser uma tarefa bem complicada para os demais autores produzirem algo tão bonito e sensível quanto ao que foi visto por aqui.

É muito interessante e curioso ver como a história de um cachorro perdido consegue tocar em sentimentos tão humanos. Todo mundo já se sentiu abandonado em meio à tempestade ou que a melhor forma de lidar com tudo isso é sozinho. E, como alguém que está lidando para sair da depressão, é bom saber que a vida sempre arranja uma forma de nos colocar de volta no caminho — e que a tempestade há de passar.

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