Valente Por Opção mostra que nem sempre é fácil seguir em frente

Eu sou Valente, assim como você e quem mais acompanhar as desventuras amorosas do pequeno cachorro também o é. Só que, acima de tudo, Valente é Vitor Cafaggi.

O autor nunca escondeu o lado autobiográfico de suas histórias e talvez tenha sido por isso que a fórmula tenha dado tão certo. Ao recontar seus próprios desamores, o autor conseguiu humanizar seu personagem de modo que todos pudessem se reconhecer ali.

No entanto, em Valente por Opção, as tiras vão além do tom confessional de sempre e se tornam uma metáfora da própria relação de Cafaggi com seu personagem. Assim como Valente quer superar suas desilusões, mas continua a correr atrás do próprio rabo tentando reviver seu antigo amor e a sofrer por isso, o autor tenta dar início a uma nova etapa na vida do protagonista, mas se entrega a seus próprios clichês e cria situações que lembram muito aquelas já apresentadas nos álbuns anteriores. Ele quer seguir em frente, mas patina sobre a fórmula que o tornou conhecido.

Entre avançar e insistir no erro

Esse “recomeço” na vida do personagem se dá logo depois de ele levar um pé na bunda da namorada pelo telefone e ver que a vida continua sendo a safada de sempre. Para escapar da fossa, ele se apega à esperança de que, com sua ida à universidade, tudo vai ser diferente. “As garotas da faculdade ainda não viram nada”, repete Valente várias vezes ao longo das 94 páginas de história, como uma espécie de mantra que vai ajudá-lo a esquecer esse mar de chorume.

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Obviamente, isso não funciona e ele apenas se afunda mais quando decide correr atrás de Dama, seu primeiro amor — e a menina que ele dispensou para ficar com Princesa. Se, em um primeiro momento, ele tinha duas pessoas correndo atrás dele, agora ele se vê sozinho mais uma vez.

Só que, assim como seu herói passa a correr atrás de seus velhos amores, Valente por Opção também anda em círculos, trazendo velhos problemas, dilemas e angústias que suas edições anteriores já apresentaram. É claro que esses sentimentos e situações são bem comuns nesses casos, mas se estendem demais dentro da HQ e quebram o bom ritmo que a história tinha até então.

Cafaggi se mantém preso à sua própria fórmula, repetindo aquilo que deu certo com o personagem. E tudo isso realmente funciona, mas não com o mesmo brilho de antes. Sabe quando seu amigo começa a insistir no erro e a correr atrás da ex? Pois é essa a sensação que predomina ao longo de toda a história.

A parábola do pastel de queijo

Só que toda essa lenga-lenga serve como uma preparação para o que está por vir. Valente por Opção não é uma história sobre ficar na fossa, mas sobre como superá-la — por mais que isso demore a aparecer. É sobre perceber que não é preciso se lamentar sobre algo quando há um mar de possibilidades ao seu redor.

E o pastel é a metáfora perfeita para ilustrar isso. Em um flashback, Valente relembra que sua vida mudou quando ele descobriu a existência do pastel de queijo e percebeu que o lanche poderia ter muito mais recheios do que a carne moída que ele tanto detestava. Assim, em vez de correr em círculos atrás de Dama e Princesa, ele abre os olhos para o que mais a vida tem a oferecer — e a faculdade é o momento ideal para isso.

Só que, mais uma vez, autor e personagem se confundem nessa brincadeira. O amadurecimento de Valente não é apenas sua libertação de seus velhos amores, mas também uma nova guinada em suas histórias. Ao longo de três volumes, acompanhamos suas desventuras amorosas até o ponto em que percebemos que ele não precisa mais disso para ser interessante. Tanto que, nesta edição, os momentos mais divertidos são aqueles em que ele está ao lado de seus amigos.

Valente

Assim, ao olhar para fora da velha fórmula, Cafaggi tem mais liberdade para explorar seu herói sob outras perspectivas. Todos sabemos que a entrada na faculdade traz um mar de novas experiências e isso é um prato cheio para a sensibilidade característica do autor. Chega de correr atrás do próprio rabo — e de repetir as mesmas histórias.

A quebra do ciclo

Por fim, Valente por Opção se revela uma boa HQ, mas ainda longe de ser tão marcante quanto as edições anteriores. Ela traz uma mensagem bem interessante e que pode servir de norte para possíveis sequências, mas essa pegada demora a aparecer e a história entra num incômodo mais do mesmo. Ainda assim, Cafaggi mostra que não perdeu a mão no que diz respeito a externalizar sentimentos tão humanos em um pequeno cachorro de moletom.

Valente por Opção trata de seguir em frente, mas mostra que isso não é tão fácil assim. E, do mesmo modo que o personagem sofre para esquecer seus amores passados, Vitor Cafaggi deixa claro que abandonar a fórmula que o tornou conhecido e se reinventar é igualmente complicado. Ele consegue ir adiante, mas não sem antes voltar a flertar com velhos vícios e insistir em seus próprios clichês. Assim como seu protagonista, ele também corre atrás do próprio rabo para, então, se encontrar.

Nada mais justo para uma tira quase que autobiográfica.

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