Direto do limbo: Batman Ano Um por Darren Aronofsky

Todos os anos, vemos filmes, livros, HQs, séries de TV e games chegando até o público, faturando muita grana e ganhando milhares de fãs, ou morrendo na praia, gastando o seu potencial. Mas e aqueles projetos que morrem antes mesmo de ver a luz do dia?
Pensando nisso, resolvemos ir atrás daquelas produções que poderiam ser incríveis (ou desastres absurdos), falando um pouco de como elas surgiram e como morreram.
Nada mais justo que começar com uma adaptação que poderia realmente ter mudado a forma como assistimos histórias em quadrinhos no cinema. Vamos falar sobre Batman, dirigido pelo Darren Aronofsky.

O Homem-Morcego no cinema

Desde que surgiu nas páginas da Detective Comics, o Batman cativou a atenção do público. Seja pelas suas histórias, seus gadgets ou sua galeria de vilões, o Homem-Morcego era uma boa contraparte para o Superman, lançado um ano antes e que representava melhor o “estilo de vida americano”.

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Ainda na década de 40, o Batman ganhou sua primeira versão live action em pequenos curtas que eram exibidos no cinema. Só que foi nos anos 60 que o Homem-Morcego de fato ganhou o mundo em versão com atores com a série de TV estrelada por Adam West.

Ali, a galhofa reinava supremo, gerando até mesmo um filme (feito para TV), mas acabou distribuído pelo mundo como “Batman – O Filme”. Ainda vale lembrar que o melhor momento da série é a Feira da Fruta.

“Quer um charuto? É Havano.”
Tudo tava naquele embalo de gente fora da forma de collant e uma máscara que tinha uma sobrancelhas ridículas desenhadas quando, na década de 70, Superman: O Filme chegou aos cinemas.

Apresentando um tom leve, porém mais fiel aos quadrinhos, o filme de Richard Donner acabou mostrando ao mundo que era possível adaptar uma HQ para o cinema e fazer todos acreditarem que um homem podia voar.

Era só uma questão de tempo para que o Batman acabasse se tornando alvo de Hollywood. Isso acontece ainda na década de 70, quando Michael Uslan, escritor da DC Comics e que viria produzir todos os filmes do Batman, e Benjamin Melniker deram a ideia de um filme do Homem-Morcego.

Pelos cálculos da dupla, o filme poderia ser lançado em 1981, traria um tom parecido com o da adaptação de Superman, mostrando a origem de Bruce Wayne e seu primeiro confronto com o Coringa. O filme terminaria com a apresentação do Robin.

Apesar de ser mais leve, o filme não traria a galhofa louca da série dos anos 60, mas isso acabou não ajudando a adaptação sair do papel. Só que o sucesso de Batman: O Cavaleiro das Trevas, de Frank Miller, acabou mudando o panorama dos quadrinhos, tornando uma adaptação mais séria do personagem algo mais interessante.

Vários atores tentaram ser Bruce Wayne no filme a ser dirigido por Tim Burton, como Mel Gibson, Bill Murray e Alec Baldwin, mas o papel acabou ficando com Michael Keaton. Fãs chilicaram, mas isso não impediu que Batman fosse o maior sucesso de 89.

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O Burton ainda voltou para uma sequência, Batman o Retorno, mas o fato de que o filme não era tão “comercial de bonequinhos” como a Warner queria, uma nova direção para os filmes precisava ser tomada.

Foi aí que a Warner nos agraciou com a visão de Joel Schumacher para o Batman. Uma visão que quase destruiu o personagem para o público.
Algo precisava ser feito. A Warner precisava fazer com que o Batman fosse visto como um personagem sério mais uma vez.

Enter the darkness

Vendo que tinha feito besteira, Joel Schumacher propôs um novo filme para o Homem-Morcego. Chamado Batman Triumphant, o longa colocaria o herói contra o Espantalho, teria Harley Quinn como filha do Coringa, que inclusive apareceria no filme. O próprio Jack Nicholson deu a entender que retornaria ao papel durante entrevistas para o filme Melhor É Impossível.

A ideia de Schumacher era diminuir um pouco o escopo do filme, deixando de lado a necessidade de se vender brinquedos para crianças e explorando os tons mais adultos do personagem.

Quando a Warner começou a desviar da produção de Triumphant, Schumacher sugeriu algo que adaptasse uma HQ já lançada pela DC Comics: Batman Ano Um.

O início do Homem-Morcego
Batman Ano Um
Apesar de todo mundo conhecer a origem do Batman, ainda existia uma breve lacuna sobre o início da carreira do herói em Gotham City. As histórias do Homem-Morcego já o colocavam na pancadaria e nunca explicavam direito como foi o primeiro dele lutando nas ruas.

Pensando nisso, a DC pediu para Frank Miller, que já havia revitalizado o interesse pelo personagem com Batman: O Cavaleiro das Trevas, para contar esses primeiros passos de Bruce Wayne na luta contra o crime.

Lançado em 1987, das edições #404 to #407 da revista do Batman, a história acabou se tornando ponto de partida para várias histórias, já que não só mostrava o “nascimento do Batman”, como era quase inteira focada no Gordon, que ainda não era Comissário de Gotham e havia recém chegado na cidade, vindo de Chicago.

A história mostra a corrupção da polícia da cidade, além dos primeiros passos de Bruce Wayne como Batman. Para fechar o pacote, ainda temos uma origem para a Mulher Gato, Selina Kyle, que aparece na história para dar ar da graça.

No final, alianças são formadas e Gotham tem dois novos protetores. Anos depois, Batman: Ano Um foi adaptada diretamente em uma animação da Warner Home Video.

Enter Aronofsky

Apesar de a Warner ter achado interessante a ideia de fazer um filme mais sério do Batman, não existia mais a confiança no Joel Schumacher, graças ao fiasco de Batman & Robin. Em 1999, o estúdio resolveu virar a sua atenção para um novo diretor: Darren Aronofsky.

Aronofsky estava no começo de sua carreira como diretor de cinema, tendo recém-lançado o hoje cult Pi. Quando a Warner chegou até ele e questionou se ele tinha interesse em conversar e mostrar qual seria a sua ideia para um filme do Batman, o cara mandou o seguinte pra chamar atenção:

“Eu colocaria Clint Eastwood como Batman e filmaria tudo em Tóquio se passando por Gotham City.”

O pessoal da Warner se mostrou intrigado pela amostra de bolas de um diretor iniciante frente a um projeto como esse.

“A franquia estava cada vez mais próxima do tom da série de TV. Eu sugeri algo que fosse o total oposto, tentar deixar tudo realista. Não utilizar grandes sets e talvez filmar algo em cidades americanas. Minha ideia era uma mistura de Desejo de Matar, Operação França e Batman”, disse o diretor para o livro Tales from Development Hell, de David Hughes.

A Warner gostou do jeito do Aronofsky e pediu um roteiro. O diretor, em parceria com Frank Miller, criou uma história que não só faria com que o Batman fosse visto com mais seriedade pelo público, mas também tinha o potencial para mudar a maneira como heróis dos quadrinhos poderiam ser adaptados para o cinema.

Mas o que esse roteiro tinha de especial? Spoiler: BAT SHIT INSANITY!

Script Review: Batman de Darren Aronofsky e Frank Miller

Batman: Ano Um, a HQ, é basicamente a história de James Gordon, recém chegado a Gotham City, vindo de Chicago com a sua mulher, e tendo que enfrentar a corrupção da polícia local. No meio disso, Bruce Wayne volta para a cidade, após anos no exterior, e vira o Batman.

Quando o Frank Miller escreveu o roteiro para o filme do Aronofsky, resolveu mudar a dinâmica da história, de uma maneira que faz com que a adaptação parecesse muito mais com "um filme do Batman" do que "Olha ali um cara vestido de morcego".
DA'SBATMAN3Desde o início, a ideia de tornar o Batman um personagem mais realista é levada a sério, já que, em momento algum, a história parece exagerada como um gibi. No roteiro, Bruce Wayne vive atormentado por pesadelos da morte de seus pais.

Com oito anos, ele viu Thomas e Martha Wayne serem assassinados a sangue frio na sua frente, fazendo com que ele simplesmente fugisse. Encontrado pelo dono de uma oficina, o BIg Al, Bruce acaba sendo criado pelo sujeito e seu filho, conhecido como Little Al.

Antes de falecer, Big Al pede para o filho cuidar de Bruce, já que sente que o jovem é traumatizado demais. Se você não se ligou, Little Al é a versão do Alfred aqui nessa história.

Só que, em vez de ser um mordomo inglês, Little Al é um senhor negro, formado em medicina e que serviu ao exército. E ele cuida do Bruce como se ele fosse seu filho.

O Bruce de Batman Ano Um: O Filme, é um jovem perturbado, que vive escrevendo cartas para o seu pai falecido, mas que tem em si um senso de justiça , algo que é mostrado quando ele quase sai no braço com um cafetão, logo no início da história.

O cafetão é o chefe da jovem Selina Kyle, uma dominatrix que trabalha em um zonão na frente da oficina do Big Al. O zonão fica no exato local onde era o teatro que os Wayne foram quinze anos antes.

Esse período que o Bruce passou sumido também é usado de leve para o filme. Ninguém sabe para onde foi Bruce Wayne e o prazo para que ele pudesse reinvidicar sua fortuna está próximo de acabar. Você lê isso e sabe que, tudo o que está acontecendo com ele nessa história é, na verdade, a preparação para ele se tornar o Batman que todo mundo conhece.

Junto de tudo isso, temos James Gordon, um detetive que vive em Gotham com a sua mulher, mas que quer ser transferido da cidade a todo custo por não aguentar em ser, praticamente, o único policial honesto do lugar.

No roteiro, não existe um vilão conhecido do Batman (apesar de uma pequena deixa para a existência de um jovem de "cabelos esverdeados" em Arkham), usando um comissário de polícia corrupto como o maior inimigo da história. Essa escolha faz com que Batman: Ano Um parece um filme bem mais "pé no chão" e urbano que qualquer outro feito até hoje.

Até mesmo os filmes do Justiceiro usam alguns vilões mais caricatos (aquele russo e o Jigsaw), enquanto, aqui, o negócio dá muito mais a impressão de ser algo que poderia acontecer em uma metrópole violenta.

O nascimento do morcego

A maneira como o Bruce vira o Batman também é um pouco diferente. Aqui, ele se vê perdido, sem propósito na vida e sem saber como honrar a memória de seu pai. Um dia, vendo a sua herança (um anel que estava com o pai quando ele morreu, com as letras T e W entrelaçadas), ele escuta uma notícia sobre um sequestro.

Na tela da TV, James Gordon, indo contra ordens do comissário, acaba salvando um bebê e virando um "Policial herói". Quando repórteres vão até ele, o Gordon solta o verbo, falando sobre a sujeira da cidade e corrupção, declarando uma guerra solitária contra o crime.

DA'SBATMAN5Essas palavras acordam algo no Bruce. Usando o anel do seu pai na mão, ele resolve partir pras ruas e arrebentar vagabundo na porrada. Ele é forte e está em forma, mas não tem muito conhecimento de artes marciais. Isso não impede que ele quebre uns braços e algumas caras.

Em dado momento, ele precisa usar de sua inteligência para utilizar utensílios diários para criar uma pequena bomba. Só que ele se torna uma lenda urbana. Por sempre usar uma máscara vagabunda e um casacão, ninguém sabe direito como ele é, mas todos sabem a marca que ele deixa.

O anel de Thomas Wayne acaba deixando uma marca estranha nos machucados dos vagabundos. Uma marca que lembra um morcego. Isso faz com que as autoridades e a imprensa comecem a chamar o vigilante como "O Morcego". Daí pra Batman é um pulo.

O roteiro em si não mostra muito quanto tempo passa desde que encontramos Bruce acordando de um pesadelo até o seu final, mas é interessante o fato de que ele deixa claro que o jovem é muito inteligente, ainda que perturbado, aprendendo grande parte do que vai usar nas ruas em livros de química, criminalística e no Anarchist's Cookbook.

Em vez de um monte de brinquedinhos caros, assim como era nos primeiros quadrinhos do personagem, o Batman se baseia muito mais em armadilhas químicas para combater o crime. Sua roupa e forma de agir são muito mais de alguém com uma força de vontade fudida e um conhecimento absurdo, do que alguém perturbado com uma quantia de dinheiro obscena.

Eventualmente, os caminhos do Gordon e do Batman se cruzam na luta contra o Comissário Loeb. Selina Kyle aparece pouco, mas temos o seu caminho para se tornar a Mulher-Gato mostrado, além de uma participação curta de Harvey Dent somente como advogado DO BEM.

DA'SBATMAN7Lendo o roteiro, é possível notar como ele seria barato de ser produzido, já que não apresenta cenas mirabolantes (talvez uma, mas nada perto dos filmes anteriores), e ele é muito mais uma história urbana.

Você acredita que Gotham é real, que ela é suja, corrupta e que precisava de homens como o Gordon, Dent e o Wayne pra limpar tudo.

Talvez tirando Batman Begins, os filmes do Batman tem a mania de focar demais nos vilões. Batman: O Cavaleiro das Trevas é um filme muito legal, mas é muito mais um filme do Gordon, Dent e, principalmente, Coringa do que do Batman. Dessa forma, parece que ele é apenas sombrio e isso basta pro personagem.

Apesar de não ser um roteiro perfeito (tem muito diálogo sem noção e umas passagens desnecessárias, que faziam o Bruce virar mais o Marv, de Sin City, que Batman), essa história entra muito mais na cabeça do personagem que as outras.

Você percebe o quão perturbado é esse cara, e que apenas a vontade de honrar o nome do pai e aquele senso absurdo de justiça impedem que ele saía matando todo mundo na rua.

Na mão do Aronofsky e de um ator de peso (o próprio Christian Bale começou a entrar na dança do Batman com esse filme), isso poderia mudar como tudo era feito nas adaptações de quadrinhos.

Muita gente reclama hoje em dia que a Warner quer transformar todos os seus filmes de quadrinhos em coisas "realistas e sombrias", mas talvez, para o Batman, isso seja o ideal. A partir do momento que você começa a focar demais em inimigos coloridos, você começa a notar que é meio ridículo um cara perturbado vestido de morcego.

Esse roteiro evita isso a ponto de você acreditar que sim, um cara vestido de morcego poderia estar aí, arrebentando a bandidagem no murro, e quem sabe achar uma boa ideia.

AHhh, e só pra ficar no embalo do Frank Miller e violência, o Batman não mata, mas dá uma facada NO OLHO do comissário Loeb. NO. OLHO.

Hora de seguir em frente

Quando Frank Miller e o Darren Aronofsky entregaram o roteiro para a Warner, já sabiam que o negócio não seria aprovado. Ele era relativamente diferente da HQ original, mudava elementos da mitologia do personagem, apesar de manter a sua essência.

Segundo o diretor, ele tinha uma esperança de que, como acontece nas HQs, o estúdio poderia ter um filme do Batman que eles venderiam bonequinhos e teriam crianças querendo ser o Homem-Morcego e, ao mesmo tempo, uma linha mais barata, voltada ao público adulto e fãs mais hardcore.

Basicamente, o que o Aronofsky queria era um mundo em que seria possível ter uma franquia normal e adaptações de graphic novels fora daquela timeline. Pense nessa possibilidade.

Obviamente, como o público geral não teria capacidade de assimilar que existem dois Batman diferentes e tudo mais, o estúdio resolveu seguir em frente. Mesmo sem poder fazer um filme do Batman com classificação mais alta, a Warner ainda estava interessada em uma adaptação mais séria para o personagem.

Em 2003, o diretor Christopher Nolan, embalado pelo sucesso de crítica de seu filme Amnésia, pegou as rédeas do novo projeto do Batman. Aproveitando elementos de Batman Ano Um (a HQ E esse roteiro), Nolan ajudou a criar a história que gerou Batman Begins.

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A trilogia The Dark Knight teve grande sucesso, conseguindo um Oscar póstumo para Heath Ledger, além de ser o motivo pelo qual a Academia mudou o número de indicados para Melhor Filme para, talvez acomodar mais longas que agradaram ao público geral.

No final das contas, a Warner ainda conseguiu ressuscitar o Batman aos olhos do público que vai aos cinemas, gerando bilhões no processo. Só que não deixa de ser interessante imaginar um mundo onde veríamos um Batman todo quebrado, usando um Lincoln Continental modificado como Batmóvel e sai dando facada no olho dos outros. NO OLHO.

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