XCOM 2 é provavelmente o jogo que mais me deixou frustrado e provocou gritos de indignação este ano. Depois da décima vez em que você erra um tiro com 85% de acerto e quase morre durante o contra-ataque (quase sempre certeiro) é difícil não pensar que tem alguma coisa errada e que a resistência foi formada na base do “consegue andar, tá valendo”.

Mesmo passando raiva, por algum motivo eu não conseguia largar o jogo. Muito por questão de teimosia: mais alguns dias de espera e alguma pesquisa ia garantir uma arma ou item novo que ia deixar eu me vingar. Mas principalmente pelo fato de que o jogo da Firaxis consegue fazer o que eu achava difícil – ser melhor do que o antecessor Enemy Unknown/Within em praticamente todos os sentidos.

Luta contra o tempo

A essa altura, você provavelmente já sabe a trama do jogo, mas não custa repetir. A humanidade perdeu a luta contra os aliens, que destruíram os financiadores da XCOM original e dominaram o mundo. No entanto, em vez de destruir a Terra, eles decidiram dar uma de bonzinhos e começaram a criar clínicas capazes de curar praticamente qualquer doença, atuando no planeta através de uma força conhecida como ADVENT.

Os únicos que não caíram nessa história fazem parte do pessoal que sobreviveu às batalhas anteriores e, agora, vive escondido e reunido em pequenas guerrilhas. Já você, o Comandante, foi capturado e passou 20 anos nas mãos dos alienígenas – seu resgate acontece logo no início do game, significando o ressurgimento da XCOM.

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Você mal tem tempo de comemorar, porque descobre que seu resgate fez os aliens ligarem o “plano B” e começarem a apressar o chamado Project Avatar. No começo, você não faz ideia do que é isso, só sabe que a parada é pesada e que se deixar o contador vermelho que aparece no centro da tela ser preenchido, a Terra vai pro buraco e a famosa tela de Game Over vai aparecer no seu monitor.

Graças a isso, XCOM 2 ganha um ritmo de urgência que não havia no reboot lançado em 2012. Como você sempre tem que dar um jeito de atrasar os planos dos aliens, muitas vezes isso significa não poder esperar até que uma unidade mais poderosa se recupere se machucados ou que uma pesquisa importante seja finalizada: o relógio está sempre contando e não dá para dormir no ponto achando que tudo vai ficar bem.

Parta para o ataque

O mesmo princípio de urgência se aplica às fases do jogo, que agora apresentam contadores que limitam o quanto você pode agir. Além de obrigar você a jogar de maneira mais agressiva, isso faz sentido do ponto de vista da história — como seus inimigos agora têm o controle do planeta, eles podem responder a ataques de maneira mais rápida, o que é um risco para as forças de resistência que procuram se manter escondidas.

O ponto de vista que coloca você em desvantagem também implicou em algumas mecânicas novas e em mudanças na maneira como você evolui. A Firaxis deixou de lado o processo chato de enviar satélites para órbita para conseguir expandir seus fundos: agora, você deve viajar pelo planeta entrando em contato com outros rebeldes para conseguir isso. Isso também implica na eliminação total das perseguições de aeronaves, uma das partes mais chatas de Enemy Unknown.

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Em compensação, agora é preciso gastar alguns dias coletando sua “mesada” antes que ela se torne plenamente disponível para realizar investimentos. Embora o tempo dedicado a isso não seja exatamente alto, é meio chato ter que lidar com uma batalha quando faltava somente mais um pouco para você ter grana suficiente para comprar uma nova arma para seus personagens.

Falando em equipamentos, a Firaxis também optou por um caminho mais simplificado nesse sentido. Agora, ao fazer um upgrade de armadura ou arma, ele se torna disponível para todos os seus soldados de forma infinita — ou seja, esqueça ter que comprar uma dúzia de proteções que vão ser deixadas de lado assim que um novo upgrade for aberto.

A maneira como o equipamento de um personagem se diferencia do outro é através dos acessórios que você pode colocar em metralhadoras, carabinas e metralhadoras giratórias. Esses modificadores são deixados no chão por alguns inimigos de forma aleatória e garantem bônus como uma maior quantidade de balas ou a possibilidade de ganhar uma “recarga grátis” a cada batalha — um total de dois modificadores pode ser atribuído a cada arma disponível em seu inventário (eles podem ser substituídos, mas a peça nova sempre destrói a anterior nesse processo).

Mais personalização

Outro ponto em que XCOM 2 supera facilmente seu antecessor está nas opções de personalização oferecidas ao jogador. O título possui uma grande variedade de rostos, vozes e acessórios para você deixar seu time de guerrilheiros da maneira que deseja — em outras palavras, ficou mais fácil colocar o rosto de seus amigos em soldados que vão ter um fim trágico, provocando certo constrangimento sempre que isso surgir em uma conversa.

O maior número de opções também se traduz nas classes do jogo, que agora contam com dois caminhos bastante distintos que podem ser misturados à vontade. Embora os snipers ainda sejam a opção mais “overpowered” disponível, não existe uma opção que seja “inútil” ou menos valiosa — minha preferida é a “Specialist”, que tem um robô absurdamente útil para curar aliados à distância e para hackear algumas das unidades mecânicas mais avançadas.

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Até mesmo sua base pode ser construída de forma mais livre e tem mais espaço que você cometa alguns “deslizes” de projeto. Agora, você não está mais em um bunker subterrâneo, mas sim em uma nave alienígena roubada que foi adaptada a seus propósitos.

Em vez de escavar, agora é preciso limpar salas repletas de entulho para transformá-las em algo útil — processo que rende alguns recursos para sua tripulação. Além disso, não há mais toda a questão dos bônus concedidos a salas colocadas uma ao lado do outra, que foi substituído por um sistema de upgrade. O resultado disso é que não é preciso mais investir em múltiplas cópias da mesma estrutura (com algumas exceções), o que contribui para a sensação de que estamos lidando com um game menos burocrático.

Para completar, XCOM 2 conta com suporte nativo a mods através do Steam Workshop. São poucas as opções disponíveis atualmente, mas já dá para encontrar algumas coisas legais, principalmente no que diz respeito a itens estéticos para seus personagens. A vantagem de o jogo usar o sistema da Valve é que dá para instalar tudo ou cancelar assinaturas de modificações com muito mais facilidade do que se você estivesse aplicando os mods “na mão”.

Mas e as batalhas?

Os confrontos de XCOM 2 seguem um esquema semelhante ao de Enemy Unknown, acontecendo em turnos com uma visão isométrica. A diferença fica por conta de uma nova mecânica de furtividade que permite ter um “ataque livre” em inimigos desprotegidos contanto que eles não notem sua presença no mapa — algo ideal para fazer emboscadas.

Outro ponto de mudança é o fato de que, se um inimigo entra em jogo após o fim do turno do jogador, ele não ganha mais uma “ação livre”. Ou seja, as criaturas que já estavam na tela podem agir, mas as novas ameaças vão te dar uma espécie de “passe livre” — algo que não acontecia na versão anterior e que muita vezes provocava uma série de mortes idiotas.

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20 anos de atuação na Terra permitiram que os alienígenas investissem em diversas melhorias para as criaturas enfrentadas em Enemy Unknown. Embora nem todas elas retornem, a maioria faz isso de forma mais poderosa — os sectoids, por exemplo, ganharam altura, massa muscular e a tendência de provocar pânico em seus personagens ou dominar a mente deles (o que vai fazer você querer jogar seu teclado pela janela algumas vezes).

As criaturas novas também são bastante interessantes e vão testar as habilidades de quem se considera um “veterano” da série. O momento em que um inimigo totalmente novo aparece sempre é emocionante, e enquanto você não descobre a maneira certa de lidar com ele há sempre aquela sensação de que ele pode acabar com seu time inteiro com um único movimento.

PC master race?

Como jogo exclusivo de PC, XCOM 2 em muitos momentos tem um desempenho que lembra um port ruim de um título para consoles. Infelizmente, a Firaxis fez um trabalho porco de otimização e é preciso ter uma máquina bem mais poderosa do que a recomendada pela empresa para rodar o jogo “liso” com a maioria dos efeitos visuais ligados.

O game também apresenta alguns bugs bizarros durante algumas animações, principalmente quando você ativa o modo “overwatch” com múltiplas unidades. Durante minha experiência, também testemunhei vários momentos em que a câmera era jogada para algum ponto aleatório do mapa durante alguns minutos enquanto o game parecia decidir o que fazer em seguida.

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Para completar, os tempos de carregamento são bizarramente longos, mesmo para quem decidiu instalar XCOM 2 em um SSD (que foi o meu caso). O mais estranho disso é que alguns desses intervalos são cortados de forma brutal simplesmente apertando a tecla “Caps Lock”, indício de que aconteceu alguma coisa meio errada no processo de programação.

A Firaxis já prometeu fazer alguma coisa a respeito, mas até o momento a empresa não liberou qualquer patch nesse sentido. Assim, se você ainda está em dúvida se a sua máquina aguenta rodar o jogo, pode valer a pena esperar um pouquinho até que comecem a surgir relatos de que o desempenho já está mais estável.

Tio, devo jogar?

XCOM 2 não é um jogo para todos, e não digo isso como forma de me colocar em um patamar superior. Mesmo quem é fã de jogos de estratégia estilo Final Fantasy Tactics pode ter problemas em se adaptar ao sistema de batalhas que muitas vezes parece injusto e ao modo restritivo como recursos são disponibilizados.

No entanto, quem estiver disposto a entender como o projeto da Firaxis funciona corre o risco de se viciar nesse universo. O game pega o que era bom em Enemy Unknown e melhora tudo isso em diversos sentidos, deixando de lado muitos dos problemas que prejudicavam o jogo — com exceção de algumas limitações técnicas, infelizmente.

Na opinião deste modesto fanfarrão, XCOM 2 é aquele tipo de game que você paga full price e não se arrepende. Com altos valores de produção, o título é daqueles que faz pensar em estratégias e modos de evoluir mesmo quando você está longe do computador (provavelmente em uma tarefa mais importante para sua subsistência e que exige mais atenção do que aquela que você está disposta a investir).

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XCOM 2 foi testado com cópia cedida pela 2K Games .
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