Tartarugas Ninja

Review – As Tartarugas Ninja

Tartarugas ninja que são adolescentes mutantes. Independente de como você vai apresentar isso, não há como escapar do fato de que esse é um conceito ridículo. É algo tão absurdo que qualquer coisa relacionada aos personagens acaba caindo na galhofa — que é o que torna o conceito divertido se bem utilizado. O problema é que, quando erram a mão, a cagada é feia.

Quando anunciaram que Michael Bay iria produzir um novo filme dos quelônios lutadores com uma pegada mais realista, muita gente torceu o nariz. Entre rumores de que os heróis seriam alienígenas até à revelação do visual dos heróis, tudo parecia rumar ao desastre. Até que os primeiros trailers começaram a pipocar por aí e mostrar que as coisas aparentavam estar bem divertidas.

E, agora que As Tartarugas Ninja finalmente chegou ao cinema, é possível ver que o longa não é o desastre que aparentava, mas está longe de ser chamado de bom. A nova aventura de Leonardo, Raphael, Donatello e Michelangelo é apenas boba e infantil.

Sem saber pra onde ir

O principal problema desse novo filme é que ele tenta ser muita coisa e, no fim, acaba não sendo nada. E a principal causa disso é o fato de ele não se assumir nem como uma adaptação mais madura dos personagens e nem abraça a galhofa para ser uma produção infantil. Ele simplesmente se perde no caminho.

Tartarugas Ninja
Uma vez cocota, sempre cocota

Você percebe isso já no enredo, que tanta abordar algumas questões mais sombrias e sérias, mas recheia isso com piadas de peido e com diálogos tão didáticos para que qualquer criança possa entender o que está acontecendo.

Na história, temos uma Nova York que sofre com a escalada da violência com o Clã do Pé e a repórter April O’Neil tenta investigar isso não apenas para mostrar a verdade, como também dar uma guinada na carreira. Até aí tudo ok, o problema é que a coisa degringola de um jeito que é impossível manter o clima soturno. É aí que entra a origem das Tartarugas, uma história de experimentos genéticos, o plano do vilão, a força do amor e da confiança e um monte de pataquada tão clichê, previsível e boba que você logo esquece a boa impressão inicial.

As Tartarugas Ninja cai na velha armadilha de que, para um filme ser despretensioso, ele precisa subestimar a inteligência do público — e a adaptação faz isso de diferentes formas. Não há nada de errado em mostrar o grupo principal como personagens bem-humorados para fazer algumas piadas (na verdade, ele explora muito bem a dinâmica entre elas) e nem se aproveitar de fórmulas prontas para amarrar o enredo. O problema é em como isso é feito.

Tartarugas Ninja

O diretor Jonathan Liebesman se preocupa tanto em fazer graça e garantir que aquelas criaturas gigantescas — e, de certo modo, assustadoras — tenham um apelo com o público infantil que ele não pensa duas vezes na hora de mandar a coerência do roteiro pro inferno. Afinal, por que se importar com o discurso de que os mutantes precisam viver em segredo quando você pode colocá-los dentro de uma van pintada de tartaruga e equipada com uma bazuca na mesma cena?

Além disso, alguns personagens parecem ser, na verdade, uma caricatura deles mesmos. Isso fica bem claro nos diálogos dos vilões, que precisam frisar sobre o quanto eles são maus para que ninguém duvide disso. O Destruidor falando que o Clã do Pé pode usar INOCENTES para atrair as tartarugas ou de que os heróis vão MORRER quando extraírem seu sangue mostram o quanto o filme nivela o espectador por baixo. Chega a ser ofensivo.

É esse tipo de quebra que faz com que as novas Tartarugas Ninja não tenham um apelo nem com a molecada e muito menos com os velhos fãs que cresceram gritando Cawabanga. E eu nem vou entrar no mérito da ereção do Michelangelo.

Tartarugas Ninja

O ponto é que o filme tenta agradar todo mundo com esse tipo de situação despretensiosa e, além de não conseguir atingir ninguém, ainda prejudica todo o andamento da história — principalmente quando a gente vê o dedo do Michael Bay na produção.

20 minutos em 90

Qualquer pessoa que conseguiu assistir à série Transformers já sabe que o “jeitinho Michael Bay” de fazer filme é pensar em uma cena de ação e criar desculpas que justifiquem aquilo. E a impressão que temos com As Tartarugas Ninja é que o mesmo aconteceu por aqui.

Ao final da sessão, o sentimento que fica é que o diretor pegou um episódio de 20 minutos da animação e esticou para que ele durasse 1h30. Isso é ruim? Não seria se esse tempo extra fosse preenchido com algo interessante, mas a Escola Bay de Cinema faz com que tenhamos uma gigantesca sequência de ação que, de tão longa, se torna chata.

Tartarugas Ninja

Eu não sei ao certo quanto tempo leva, mas a impressão que tive é que durou, pelo menos, metade do filme. A partir do momento que o Clã do Pé invade o esgoto, é perseguição, tiro, porrada e bomba até os créditos finais. O filme não entrega momentos de respiro e chega um ponto em que você simplesmente deixa de se importar e tentar entender o que está acontecendo. Você só vai no embalo.

Por outro lado, não há como negar que as lutas estão muito legais e bem coreografadas. O confronto entre Splinter e o Destruidor é o ponto alto de todo o longa e deixa claro por que o rato é um mestre — mesmo tendo aprendido tudo em um livro de “Ninjutsu for dummies” (é sério). O quarteto principal também protagoniza umas pancadarias legais, sobretudo pelo bom aproveitamento das características e da personalidade de cada um.

Só que isso não consegue sustentar o filme. São apenas alguns momentos que vão prender sua atenção exatamente por se desprenderem da história como um todo.

E o novo visual das Tartarugas Ninja?

Deixando toda essa indecisão do roteiro de lado, sobra a polêmica sobre o novo visual das Tartarugas Ninja. Desde as primeiras imagens, quando vimos que elas estão mais realistas e mal encaradas, muita gente chiou dizendo que aquilo era uma afronta à sua infância. E, de todos os problemas que o longa apresenta, o design delas é o que menos incomoda.

Tartarugas Ninja

Embora elas estejam realmente muito feias, ninguém espera que uma tartaruga mutante humanoide seja bonita. Então não faz sentido trazer aquela aparência divertida e galhofa que o desenho clássico eternizou. Você pode até preferir daquele jeito, mas, assim como aconteceu com Robocop, a mudança faz sentido por aqui. Tanto que você logo se acostuma.

Incômodo mesmo foi o que fizeram com o Destruidor. Eles aproveitaram o visual clássico do vilão para criar uma espécie de armadura robótica que deveria ser ameaçadora, mas é apenas ridícula. Ela é repleta de lâminas, espadas e outros tipos de armas que faz com que ele mais pareça um Transformer do que alguém que vai lutar contra uma tartaruga de bandana.

Tartarugas Ninja
Entre o Megatron, Predator e um canivete suiço

É claro que isso foi feito só para que tivesse mais um bonequinho à venda nas lojas, mas exageraram tanto na mão que você passa mais tempo tentando entender como ele consegue ser tão ágil carregando toneladas de aço do que se admirando com a aparência. E as lâminas-bumerangue são apenas um absurdo extra.

Um erro por outras razões

Muito do que se falou antes do lançamento do filme era sobre como ele iria arruinar a infância de todo mundo. E, apesar de cometer uma série de erros, ele ainda consegue se manter bem fiel àquilo que a gente viu nos desenhos animados ao longo das últimas duas décadas.

As Tartarugas Ninja

Embora ele faça algumas adaptações em termos de origem — algumas bem desnecessárias, na verdade — a essência clássica das tartarugas está ali. Leonardo é o líder, Michelangelo é o humor, Donatello é o cérebro e a força e a rebeldia fica nas mãos de Raphael. Tudo isso está ali e funciona muito bem, principalmente por não polarizarem a trama em um ou outro herói. Cada um eles tem seu momento certo em cena, o que é ótimo.

As Tartarugas Ninja falha por não se levar a sério, mas sem assumir isso. Como eu falei no início do texto, não há problema em você abraçar a galhofa, contanto que isso seja feito do jeito certo. E não é o que acontece aqui.

Ele tenta ser engraçado nas horas erradas e sério quando não precisa. Adicionado a isso, um roteiro fraco incapaz de se sustentar faz com que o retorno dos quelônios lutadores seja bastante triste. Ele não deturpa a memória de ninguém, mas também não entende qual o charme que faz com que tartarugas adolescente mutantes ninja sejam um sucesso até hoje.

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