Review: Quarteto Fantástico

Quarteto Fantástico é um filme surpreendentemente bom. Não é nada fenomenal ou que vai fazê-lo sair empolgado do cinema, mas está longe de ser a bomba que todos esperavam.

Começo dizendo isso logo de cara porque, ao contrário de qualquer outro filme de quadrinhos, parecia ser um consenso de que estávamos diante de outra tragédia envolvendo a família fantástica. A descrença em torno dessa nova investida da Fox era enorme e muita gente torcia por um fracasso para que o estúdio largasse a franquia e a devolvesse para a Marvel.

E não foi o que aconteceu. Ainda que o novo Quarteto tenha seus problemas, ele está longe de ser um desastre e nem de perto lembra aquele chorume de 2005. Baseando-se muito nas HQs da linha Ultimate, ele traz uma releitura dos personagens que funciona, um roteiro intrigante e uma pegada bem diferente daquela que estamos acostumados a ver em filmes de super-heróis.

No fim das contas, o maior acerto de Quarteto Fantástico foi não ter sido feito pela Marvel. Ou quase.

Mais ficção-científica do que herói

Embora muita gente torça para que os direitos dos personagens da Marvel voltem para o estúdio, a verdade é que é muito mais positivo termos várias empresas trabalhando em propostas diferentes. É divertido ter um universo compartilhado? Com certeza, mas também é muito bom vermos algo que vai além disso.

Quarteto Fantástico

A Marvel tem uma fórmula bem definida e não se preocupa em ir além daquilo que seus fãs já esperam ver. Não é algo ruim, mas também não surpreende. E é por isso um filme como Quarteto Fantástico é tão importante.

O filme é muito mais uma ficção-científica do que aquilo que conhecemos de super-heróis, o que faz com que essa nova investida da Fox mereça a sua atenção exatamente por tentar ser diferente. Por mais que ainda seja um longa de origem, o tom da trama é outro e é isso que torna as coisas mais interessantes.

Tudo gira em torno da descoberta de uma outra realidade. Não temos viagens ao espaço ou raios cósmicos, mas uma espécie de mundo paralelo que os personagens tentam alcançar e, consequentemente, acabam liberando um estranho tipo de energia que lhes concede poderes. É uma mudança simples, mas que ajuda a dar esse novo tom à história.

Isso faz com que pelo menos dois terços da trama sejam dedicados à criação de uma maneira de levar os pesquisadores a esse novo lugar e, após todas as tretas, às consequências de se mexer com o que não se conhece. Sem piadinhas sendo disparadas a cada minuto ou referências em cada canto, ele consegue ser tenso nos momentos certos e mais leve quando isso é necessário.

Quarteto Fantástico
Kate Maravilha <3

Além disso, essa pegada sci-fi ajuda também a desenvolver os personagens. Temos um Reed Richards excessivamente confiante, um Johnny Storm imaturo — mas ser idiota como a versão de Chris Evans — e Sue Storm ganhou mais relevância, sendo mais que o rostinho bonito da Kate Mara para virar uma peça realmente importante dentro do grupo. Até o Victor Von Doom ganhou certa motivação, principalmente antes de virar o Doutor Destino que todos conhecemos.

Aliás, esqueça aquela baboseira de ele ser um blogueiro que odeia o Quarteto e deixe esse papel para os haters de plantão. No filme, ele é um gênio tão brilhante quanto o próprio Richards e ainda mais orgulhoso e vaidoso, o que acaba servindo de base para o louco megalomaníaco no qual acaba se tornando.

Nem tão fantástico assim

Por outro lado, nem tudo é perfeito. Ben Grimm está completamente deslocado e acaba caindo de paraquedas no meio de tudo apenas para se transformar no Coisa. O filme até consegue criar uma boa relação de amizade entre ele e Richards nos primeiros minutos, mas isso é deixado de lado em certo ponto e surge de repente apenas para não deixar o Quarteto desfalcado.

Isso porque o longa se atém tanto à estrutura da ficção-científica que tem problemas na hora de voltar para o universo dos super-heróis. Essa transição é feita de maneira atropelada no último ato, quando tudo é simplesmente jogado na tela para aproximar os personagens daquilo que conhecemos dos gibis. É o tipo o de coisa que dificilmente veríamos se fosse pelas mãos da Marvel.

Quarteto Fantástico

Tanto que, com exceção da batalha final, não vemos em nenhum momento eles agindo como um grupo de verdade. Não há uma química entre eles e parece que a única coisa que os une é a circunstância. Toda aquela dinâmica que fez o Quarteto Fantástico ser um dos nomes mais representativos da Marvel simplesmente não aparece, por mais que eles tentem forçar isso em um ou outro momento.

E isso é fundamental para esses personagens. A impressão que fica é que este é muito mais um filme do Reed Richards do que da equipe propriamente dita. Os demais personagens estão lá, desempenham seu papel, mas estão longe de ocupar um lugar central na história. Tudo gira em torno de uma única pessoa. Em X-Men isso até funciona, mas esse é um pecado mortal quando falamos do Quarteto fantástico.

É claro que há alguns acertos, como a tensão existente entre Doom e Richards por conta de Sue Storm. É algo claro e que faz sentido, mas longe de ser idiota como no filme anterior. Por outro lado, questões importantes, como o drama de Grimm após ter se transformado num monstro de pedra são apenas pincelados.

Doutor Destino de papel celofane
Doutor Destino de papel celofane

O próprio Doutor Destino como vilão é algo que acaba sendo jogado. Enquanto Victor Von Doom, ele é um bom antagonista. No entanto, a partir do momento em que é exposto à energia que lhe concede poderes, ele acaba virando apenas “aquela ameaça que surgiu e a gente precisa parar”. Ele é um vilão porque um filme de super-heróis precisa de um vilão. O problema é que Quarteto Fantástico é um péssimo filme de super-herói.

Na verdade, o maior deslize por aqui é a duração. Quarteto Fantástico tem apenas 90 minutos e ele tenta se resolver apenas no último terço, que é quando as coisas começam realmente a patinar. Os dois primeiros atos focados na ficção-científica e na própria origem dos personagens funcionam e se desenvolvem muito bem, mas são prejudicados pelos atropelos finais. Se o longa tivesse mais meia-hora de duração, certamente tudo poderia ser melhor explorado e desenvolvido.

Vá com calma

Isso faz com que Quarteto Fantástico seja um completo desastre? Muito pelo contrário — até porque o nível já era baixo graças ao incidente de 2005. Ele acerta muito bem em alguns aspectos, principalmente quando se distancia do cinema de super-heróis para ser algo a mais. E é quando ele precisa voltar para o gênero porradeiro que se perde. Talvez, com meia-hora a mais de película, tudo poderia ter sido resolvido com mais calma.

Quarteto Fantástico

Ainda assim, é um filme que vale a pena ser conferido. Ele é mediano, não vai mudar sua vida e nem fazê-lo sair empolgado da sessão, mas vai mostrar que é possível ir além da fórmula da Marvel. Mesmo com seus deslizes, ele tem boas ideias e consegue criar as bases interessantes para algo no futuro. Se a Fox não cagar, a sequência (que já foi anunciada inclusive) pode preencher essas lacunas e aprender com seus deslizes para levar a Família Fantástica para o seu lugar merecido dentro do panteão dos super-heróis. Potencial existe.

Afinal, para um filme que vinha desacreditado e sem nenhuma expectativa, qualquer vitória já uma enorme conquista.

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