Review Os Cavaleiros do Zodíaco A Lenda do Santuário

Review – Os Cavaleiros do Zodíaco: A Lenda do Santuário

Se você cresceu na década de 90 e pretende assistir a Os Cavaleiros do Zodíaco: A Lenda do Santuário, aqui vai um alerta: não vá ao cinema esperando rever a mesma história que marcou sua infância em frente à TV Manchete. Embora o novo filme dos Defensores de Athena reaproveite muito da mais famosa saga do anime, ele leva a ideia de adaptação ao pé da letra, fazendo com que as coisas se desenrolem de um jeito um pouco diferente daquilo que nos acostumamos a ver nos últimos 20 anos.

Assim, o novo longa chega às salas de todo o Brasil nesta quinta-feira com uma série de mudanças conceituais e no desenvolvimento do enredo que podem não agradar todo mundo, mas fazem muito bem à obra como um todo. Não se trata apenas de reapresentar a saga das Doze Casas com um visual atualizado, mas de trazer uma releitura quase que completa da história e do próprio conceito do que são os Cavaleiros. Assim, comprar o ingresso esperando apenas um afago nostálgico é pedir para se frustrar.

Só que, apesar de os fãs mais conservadores torcerem o nariz, não há como negar que a grande maioria dessas alterações faz com que o A Lenda do Santuário seja não apenas o melhor filme dos heróis até agora, mas uma ótima forma de renovar a ideia que nos conquistou há duas décadas e que até hoje permanece viva em nossas memórias.

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Mudando alguns conceitos

Essas alterações são feitas em três pontos fundamentais da série: história, visual/conceito e ritmo. E essa mudança de tom é sentida já na primeira cena, quando revemos a fuga de Aioros de Sagitário com a pequena Athena. Trata-se de algo que remete ao original, mas com alguns elementos inéditos que fazem toda a diferença. Ele não é mais perseguido apenas por Shura de Capricórnio e a entrada de Saga de Gêmeos na luta dá muito mais intensidade à ação. Mais do que isso, eles ampliam a noção do que é o Santuário, deixando-o mais próximo do místico do que um lugar histórico.

A Lenda do Santuário traz várias mudanças que ajudam a renovar a mitologia de Cavaleiros do Zodíaco, mas sem perder o charme original

São essas modificações que ajudam Os Cavaleiros do Zodíaco: A Lenda do Santuário a reinventar a mitologia da franquia. E não há como negar o quanto isso faz bem para renovar a história. Basta olhar para o novo visual das armaduras e do próprio Santuário para perceber o quanto tudo ficou mais grandioso e perto das grandes lendas que os personagens tanto comentam.

Portanto, esqueça aquelas ruínas perdidas em algum canto da Grécia em que qualquer pelego perdido podia entrar por acaso. O novo filme trata o templo dos cavaleiros de Athena como algo quase transcendental em que cada Casa paira no espaço — o que faz muito mais sentido se lembrarmos que estamos falando de constelações — e que só pode ser acessado por aqueles que possuem uma armadura. Seiya e companhia literalmente criam um portal para chegar às Doze Casas. É algo que faz muito mais sentido dentro daquele universo.

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Esse é um pedaço do novo Santuário

E a noção do que são as armaduras também foi alterado. O longa se aproveita da ideia inserida em Saint Seiya Omega, o novo anime da série, para abandonar aquelas caixas enormes e substituí-las por pequenos pingentes que invocam a estrutura clássica. Uma solução elegante e atual, mas que não deixa de lado a figura do Pégaso e muito menos as partes da roupa voando até os personagens.

Mais do que isso, agora elas realmente parecem armaduras. Ainda que elas mantenham um desenho próximo do original, elas são “mutáveis” e se transformam de acordo com a necessidade dos Cavaleiros. Assim, aquele pequeno elmo pode virar uma capacete em questão de segundos e, por mais estranho que seja ver Seiya com o rosto escondido, faz muito mais sentido alguém cair na porrada com o rosto protegido.

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Isso sem falar que tudo está bem mais imponente graças ao novo design proposto. Ele consegue se manter fiel àquilo que conhecemos ao mesmo tempo em que atualiza alguns conceitos. O próprio visual dos personagens mostra bem isso, principalmente quando vemos um Aioria de piercing e com uma barba que o deixa muito mais parecido com um leão ou as novas cores da armadura de Gêmeos.

É claro que temos alguns exageros, sobretudo nos minutos finais do longa, quando Cavaleiros do Zodíaco decide virar Final Fantasy, com direito à segunda forma do vilão, inimigos gigantes e coisa e tal. Só faltou tocar um One Winged Angel no fundo pra deixar a coisa com mais cara de Advent Children.

Caindo na porrada

Mas não estaríamos falando de Cavaleiros do Zodíaco se não tivéssemos muito porradaria. E, nesse quesito, A Lenda do Santuário não deixa a desejar em nada, já que ele traz um ritmo bem intenso — culpa da curta duração do filme, como veremos a seguir — e repleto de socos na velocidade da luz e com o Cosmo elevado às estrelas. Afinal, se a ideia é resumir algumas dezenas de episódios em 90 minutos, a concentração de socos por segundo não poderia ser menor.

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Mais do que isso, os confrontos são muito bem coreografados e aproveitam muito bem a movimentação exagerada para deixar as coisas bem agitadas. A primeira aparição dos Cavaleiros de Bronze é uma bela prova disso. Mesmo contra alguns inimigos genéricos, a ação se desenvolve de um jeito tão natural e empolgante que é impossível você não se animar ao ver os velhos golpes sendo reproduzidos na telona. Aliás, os ataques deixam de ser meros efeitos visuais e passam a ser realmente centenas de socos sobre o inimigo.

Essa representação menos metafórica dos ataques é uma constante ao longo do filme e funciona muito bem. Quando Aioria entra em cena para tentar matar Saori e podemos perceber a diferença de poder entre um Cavaleiro de Ouro e um de Bronze é incrível, principalmente quando podemos ver como a velocidade da luz pode de fato mudar os rumos da luta.

Tem sempre alguém no Cosmos ajudando o Cavaleiro a vencer e só um vencedor pode vestir sua armadura de Ouro

São coisas pequenas dentro do todo, mas que ajudam a renovar a ideia de poder que existe no Cosmo e no universo dos Cavaleiros do Zodíaco. É algo que cria um impacto no espectador e que certamente vai animar todo mundo que foi criança nos anos 90.

Adicione a isso o retorno da maioria das vozes presentes na dublagem original e o seu eu de 1994 vai sair saltitando do cinema. Só é uma pena que o Gilberto Barolli, como Saga de Gêmeos, não tenha gritado “MORRA SEIYA” para fechar tudo com chave de ouro.

Melhora, mas não sem errar

Porém, A Lenda do Santuário está longe de ser perfeito. Embora ele melhore muita coisa da obra original, ele comete muitos deslizes e tem uma série de problemas que tiram parte do brilho que ele poderia ter. Seja em mudanças desnecessárias ou mesmo na forma como a trama se desenvolve, o que poderia ser o retorno que todos os fãs esperavam acaba sendo maculado com falhas que poderiam ser facilmente evitadas.

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A mais incômoda de todas é, sem dúvida alguma, o humor exagerado. Tudo bem que o anime tinha suas piadas, mas o filme erra a mão de um jeito tão grotesco ao trazer uma série de tentativas de criar cenas cômicas que não funcionam. Seja com um Tatsumi extremamente forçado e irritante ou com gags visuais ao estilo Scooby-Doo, o filme tenta não se levar a sério e acaba fazendo isso nas piores horas possíveis.

A corrida não é para salvar Athena, mas para conseguir contar toda a história em apenas 90 minutos

O maior exemplo disso é a transformação pela qual Máscara da Morte de Câncer passou. Ele deixa de ser aquele inimigo cruel e impiedoso para se transformar em alguém que procura ser engraçadão, com direito até mesmo a um musical. A ideia é mostrar que ele não leva a morte a sério, brincando sobre a face daqueles que ele matou, só que o resultado é somente ridículo.

E essa forçada de barra compromete o já complicado ritmo do filme. Como dito, A Lenda do Santuário precisa comprimir cerca de 40 episódios em cerca de 90 minutos. E, se isso já deveria ser um desafio por si só, as Dozes Casas precisam disputar espaço com essas piadas desnecessárias, fazendo com que cenas importantes tenham de ser reduzidas ou meramente cortadas. Não é à toa que Shun e Ikki mal participam do filme, tendo uma luta que dura meros segundos.

O ritmo como as coisas se desenrolam é tão conturbado que você deixa de ver o filme como uma corrida até o Templo de Athena e tenta adivinhar como eles vão fazer para contar toda aquela história no tempo proposto. O longa perde tempo demais com coisas desnecessárias e precisa cortar parte do essencial para dar conta.

Sem esse excesso de piadas, poderíamos ver Andrômeda e Fênix com um pouco mais de destaque e uma participação maior do cavaleiro de Peixes, que também aparece apenas para morrer. O próprio Shaka, um dos favoritos dos fãs, é quase deixado de lado.

Sem ofender a infância de ninguém

Ainda com esses problemas, não há como negar que Os Cavaleiros do Zodíaco: A Lenda do Santuário é o filme que todos os fãs queriam ver, sendo a melhor participação dos Defensores de Athena nas telonas — uma conquista que, sejamos francos, não é lá tão difícil de se obter. Mesmo errando feio a mão no humor, o longa consegue reproduzir o clima intenso das batalhas que sempre marcaram a série e ainda renovar vários aspectos para deixa a história atual e muito mais impactante.

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Mais do que isso, essas mudanças atualizam a franquia e a aproximam do público mais jovem que não comprava a ideia que conquistou a maioria de nós há duas décadas. As explosões, as armaduras imponentes e todo o espectáculo visual das lutas está muito mais próximo das produções modernas do que aquilo que vimos na TV Manchete. Por sorte, tudo isso funciona muito bem e pode agradar tanto os velhos fãs quanto a parcela mais nova do público.

Só que, para aproveitar de verdade A Lenda do Santuário, é preciso ir ao cinema de cabeça e coração aberto. Ele não é uma adaptação literal das histórias clássicas, mas uma releitura daquilo. Tem seus erros e problemas, mas também acerta em muitos momentos. Talvez ele não seja a Armadura de Ouro que todos esperávamos, mas está bem longe de ser uma piada como um Cavaleiro de Aço.

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