Review – Êxodo: Deuses e Reis

A História é sempre contada pelos vencedores. Isso significa que, na verdade, tudo o que sabemos é apenas uma versão dos fatos. É um ponto de vista bastante parcial, o que faz com que o outro lado quase nunca seja levado em conta ou mesmo lembrado. E, quando estamos falando a Bíblia, a coisa fica ainda mais marcante, já que são algumas centenas de anos reforçando essa visão unilateral da história.

Só que, Êxodo: Deuses e Reis chega exatamente para dar uma nova camada à velha história de Moisés e da libertação dos hebreus da escravidão no Egito. O novo filme de Ridley Scott, que chega aos cinemas de todo o Brasil neste Natal, não só traz de volta o episódio às telas como nos mostra tudo sendo focado também no lado dos egípcios.

E, assim como Noé, o longa apela muito mais para a ação do que para as aulas de catequese, dando espaço para algo mais próximo de um épico que deixa de lado a figura do profeta para transformá-lo em herói. No entanto, quem esperava um Moisés Begins numa transformação do Christian Bale em Charlton Heston vai encontrar algo bem diferente e, de certo modo, assustador.

A ira de Deus

O grande mérito de Êxodo é não ser um filme bíblico e, ao mesmo tempo, nem tentar desconstruir e desacreditar aquilo que já está tão bem estabelecido pelas religiões. Ele é exatamente aquilo que o público quer ver, seja ele quem for.

É estranho imaginar isso, mas Scott construiu uma história de forma que cada pessoa vai interpretá-la de acordo com aquilo que acredita. É a sua fé que vai dar significado ao que é mostrado, seja com Deus agindo para libertar seu povo ou com tudo não passando de um delírio de Moisés combinado a muita sorte e coincidência.

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Isso pode ser sentido em vários momentos, principalmente quando Josué observa o personagem de Bale falando com o nada. E é aí que entra sua crença, já que ambas as possibilidades se encaixam no roteiro.

Por outro lado, a sutileza é posta de lado na hora de retratar Deus, que está longe de ser a figura bondosa e paterna que conhecemos. Ele é cruel, impiedoso e extremamente mimado — o que apenas torna a decisão de mostrá-lo como uma criança tão impactante.

Como um garoto, ele impõe sua vontade, é inconsequente e não aceita ouvir um “não” como resposta. E essa personalidade dura não só rende momentos fortes que contrastam com a imagem de “filme bíblico” que temos como ainda rende alguns diálogos incríveis com Moisés. Afinal, se Ele se importa tanto com seu povo, por que esperou tanto tempo para libertá-lo?

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É aqui que Deuses e Reis se diferencia de boa parte das obras inspiradas na Bíblia que temos até hoje. Seja Deus real ou apenas fruto da loucura de Moisés, suas ações são bastante questionáveis, principalmente quando vemos o que as famosas pragas que caem sobre o Egito fazem à população comum, aquela que está distante da disputa entre o profeta e o faraó Ramsés.

Cenas como os agricultores vendo suas plantações mortas em meio ao rio de sangue ou mesmo o choro das mães quando encontram seus filhos mortos no meio da noite só reforçar de que Deus é amor somente no Novo Testamento.

Sem heróis ou vilões — exceto o roteirista

Já que Êxodo dedica boa parte do filme a mostrar o sofrimento dos egípcios diante da ação divina, é de se esperar que não tenhamos uma visão estritamente maniqueísta de seus personagens. Assim como Moisés não é o santo homem que age em prol de um povo, Ramsés está longe de ser o tirano louco.

Isso é tão verdade que, de modo não proposital, o público acaba criando um tipo de afeição com o faraó. Seja porque todo mundo já conhece a história de Moisés de trás pra frente ou pela boa atuação de Joel Edgerton, o fato é que você não consegue ver Ramsés como um vilão. Não que seja possível torcer por ele, mas você entende seu drama e sente pena em vários momentos, seja quando se nega a ver seu amigo como líder rebelde ou quando se depara com o cadáver de seu filho.

Por outro lado, o personagem de Christian Bale peca em seu desenvolvimento. Embora os momentos em que ele questiona Deus sejam bem interessantes, muita coisa em Moisés desliza pela falta de profundidade. Para fugir de explicações que todos conhecem, o filme se apressa em muitos momentos e acaba criando soluções forçadas ou simplesmente tiradas do nada.

A transformação de braço direito do faraó no responsável pela libertação de um povo acontece de maneira atropelada e confusa, com direito a algumas cenas que realmente não fazem sentido. Em uma das cenas, por exemplo, é revelado a Moisés que ele é, na verdade, hebreu e o cara despiroca forte, matando geral. Só que, no instante seguinte, tudo volta ao normal e, pouco depois, ele já tá falando com Deus e se transformando no herói bíblico.

Exodo

O curioso é que Êxodo: Deuses e Reis se concentra tanto na relação de amizade entre Moisés e Ramsés que ele praticamente se esquece dos demais personagens ali. Com isso, Ben Kingsley e Aaron Paul acabam sendo subaproveitados e se transformam em figurantes de luxo — muito embora o Mandarim tenha uma presença de cena absurda. As participações de Paul, por exemplo, se limitam a ficar vendo o Christian Bale falando sozinho no mato.

Na média

No fim das contas, Êxodo: Deuses e Reis se mostra muito mais interessante pela sua proposta do que pela execução. A ideia de humanizar personagens que eram apenas instrumento de roteiro por alguns séculos dá uma carga dramática bem legal ao filme, mas não a ponto de transformá-lo no épico que se propõe a ser.

Palmas para a mulher de Moisés
Palmas para a mulher de Moisés

Com personagens mal desenvolvidos e soluções apressadas, a nova investida de Ridley Scott nos dramas históricos fica bem aquém de ser um novo Gladiador, ficando mais próximo de um Robin Hood. Ele está longe de ser um filme ruim, mas não consegue fazer jus à fama e à competência do diretor.

Seja com Êxodo ou mesmo Noé, esse revival de clássicos bíblicos ainda não mostrou para o que veio. Tivemos abordagens interessantes, mas nada realmente memorável. E, se depender de Deuses e Reis, o Moisés definitivo continua sendo o Charlton Heston segurando duas placas de pedra e não o nosso Bat-Moisés.

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