É possível afirmar que filmes da Pixar são como pizza e sexo: até quando o negócio é ruim, é bom. E quando é bom, é bom de te fazer chorar e repensar toda a sua vida até aquele ponto.

Eis que depois de se perguntar como seria se brinquedos, carros, peixes e tantos outros animais tivessem sentimentos, o estúdio resolveu se perguntar: e se os sentimentos tivessem sentimentos?

O resultado é a melhor animação dos caras desde Toy Story 3 e um dos filmes mais bonitos do cinema.

Antes dos sentimentos, um vulcão sonhador

A Pixar já começa dando soco no seu coração antes mesmo do filme começar com um curta musical maravilhoso sobre um vulcão cantor que sonha em ter um grande amor.

Embalado por uma musiquinha super simples num combo voz e ukulele, você descobre que pode ficar emocionadíssimo com a história de uma montanha que solta lava pela cabeça e quer dar uns beijinhos. Deus perdoa, a Pixar não.

Cantor, sonhador e com cara de quem tá chapado

Cantor, sonhador e com cara de quem tá chapado

O caos em busca da alegria

Divertida Mente (uma adaptação marota e sagaz para Inside Out) é estrelado pelas cinco emoções da menina Riley: Alegria, Medo, Raiva, Nojinho e Tristeza, que se revezam — de forma caótica, tal como um palhaço embriagado numa festa infantil — no comando do estado de espírito da garota há 11 anos.

O filme começa mostrando o nascimento de Riley e passa rapidamente por alguns momentos da sua infância pra mostrar como os sentimentos lidam com cada tipo de situação. A líder do grupo, Alegria, procura sempre garantir que Riley tenha o dia mais feliz possível controlando o ímpeto dos outros personagens.

Tudo vai muito bem até que acontece uma grande confusão na sala de comando (causada talvez pela menina estar tentando entender o roteiro de Prometheus, quem sabe) e a cabeça do grupo é expelida pra fora do local junto com a Tristeza. As duas emoções precisam então percorrer os corredores da memória e algumas ilhas de personalidade para retornarem até o centro de comando. Enquanto isso, com apenas Medo, Raiva e Nojinho liderando a barca, a vida de Riley começa a mudar drasticamente (e olha que ela ainda nem entrou na puberdade).

Raiva, Nojinho, Alegria, Medo e Tristeza no centro de comando

Raiva, Nojinho, Alegria, Medo e Tristeza no centro de comando

Prepare-se para chorar

Pode parecer simples demais dividir tudo que uma pessoa sente em apenas cinco emoções, mas isso abre espaço pra criatividade da Pixar brilhar com todas as forças, como um celular aceso no meio da sessão (sério, se você faz isso, apenas pare de ser um babaca). A equipe por trás de Divertida Mente teve algumas sacadas geniais na hora de retratar como a nossa consciência funciona, com direito a algumas piadas que te fazem gargalhar sem vergonha nenhuma no cinema.

E por mais que o foco do filme pareça ser apenas as emoções de Riley, a trama lida bastante com a questão das memórias, tanto as que levamos pra vida toda — e geram verdadeiras ilhas de personalidade — quanto as que acabam sendo esquecidas.

É durante a jornada de volta à sala de comando que Alegria e Tristeza redescobrem diversos elementos que um dia já foram primordiais na personalidade da menina. Antigas fantasias, lembranças, brincadeiras e terras inteiras que um dia fizeram parte do dia-a-dia da garota mas acabaram perdendo relevância no ciclo natural de amadurecimento da personagem.

Por mais que os elementos retratados sejam específicos de Riley, é impossível não se colocar no lugar dela e pensar em quantas coisas acabaram ficando no fundo da prateleira dentro da cabeça de cada um de nós. E dependendo do seu nível de empatia com esse cenário, prepare-se pra chorar muito.

Mas a mensagem mais bonita de Divertida Mente é que todas as emoções são importantes. Assim como a Alegria pensa no início do filme, há hoje uma ideia de que se o seu dia não foi 100% feliz, você fracassou. Não é bem assim.

Todos nós ainda teremos momentos e dias inteiros tristes, por exemplo, e não há nada errado nisso. Pelo contrário: dias assim são extremamente necessários no balanço da vida e são eles que fazem os bons momentos ficarem ainda melhores.

Há espaço para tristeza, medo, alegria, raiva, nojinho e as mais diversas combinações desses sentimentos no nosso cotidiano. E a forma como o filme nos ensina isso é de uma beleza indescritível (e difícil de ilustrar sem spoilers).

Conclusão

Divertida mente review

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