Rocky Balboa é um personagem que, em teoria, não deveria funcionar tão bem quanto deveria. Ele é bobo, provavelmente por causa das pancadas na cabeça, usa o estilo de luta mais imbecil possível (“me bate até cansar”), mas existe algo tão humano nele que é praticamente impossível não torcer por ele.

Quando Creed: Nascido Para Lutar foi anunciado, a ideia de um novo filme dentro daquele mesmo universo e utilizando o Rocky como um mero coadjuvante parecia apenas uma maneira de faturar um dinheiro em cima da glória do personagem. Uma forma de diminuir a importância dele e acabar com o final FANTÁSTICO de Rocky Balboa, seu último filme.

Duas horas e treze minutos depois de Creed começar, depois de três momentos em que o filme quase me fez derramar uma ou duas lágrimas, é possível dizer que ele tá bem longe de ser um jeito idiota de ganhar dinheiro em cima das costas do Rocky. Agora, é hora de torcer por Adonis Creed.

Saindo da sombra de uma lenda

Creed conta a história de Donnie, um moleque órfão que vive saindo na mão no orfanato. Um dia, uma senhora conta que o moleque é fruto de um caso entre o seu marido e a mãe dele. Quem era o pai do moleque? Apollo Creed.

Como uma forma de ter uma família, ela cria o moleque como seu filho e aí somos apresentados para a versão adulta de Adonis (puta nome maneiro): Michael B Jordan.

2015 deveria ter sido o ano dourado do cara. Ele era uma das estrelas de Quarteto Fantástico E de Creed. Infelizmente, Quarteto Fantástico foi aquilo lá (certamente não foi culpa do elenco), mas em Creed o cara brilha.

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Divulgação/Warner Bros

Desde a sua primeira cena, ele consegue passar o sentimento de alguém que vive sob uma sombra enorme e tenta, emulando um pouco a pessoa que nunca esteve presente em sua vida, como uma forma de conseguir criar o seu próprio legado.

O meu maior medo com Creed é que ele seria realmente um coadjuvante dentro do seu próprio filme, mas isso não acontece, já que a história ainda é bem centrada na vida de Adonis, suas escolhas e desafios. Até mesmo quando ele resolve virar boxeador profissional e pedir ajuda para um antigo amigo de seu pai.

O Garanhão Italiano retorna

Como todo mundo sabe, em dado momento, Rocky Balboa, antigo inimigo que se torna amigo de Apollo, começa a treinar o jovem Adonis. O medo que eu falei ali em cima era relacionado ao fato de que o Balboa é um personagem que conseguiria facilmente roubar o filme do seu astro, principalmente porque o Stallone tem essa aura quando fica com mais jeito de bobo, típico do Rocky.

Só que tudo é realmente equilibrado, continuando com o desenvolvimento do Rocky, mas nunca se tornando algo mais importante que a jornada do jovem Creed. Pelo contrário, muitas vezes o que acontece com o Rocky acaba por servir como combustível para a trama de Adonis.

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Divulgação/Warner Bros

Mesmo assim, é inegável que com a idade, o personagem do Rocky se tornou perfeito para o Sylvester Stallone. É impressionante como ele consegue SER o personagem e a cada momento em que ele precisa entregar algo mais emocionante, vem tudo com uma força tão grande que você com certeza fica com o peito apertado.

O Globo de Ouro que ele ganhou como ator coadjuvante é muito merecido e, se levar o Oscar, não vai ser algo injusto ou que foi no embalo de um hype. Mesmo não sendo o foco principal do filme, o Rocky funciona como o suporte perfeito para a jornada de superação e descoberta de Adonis Creed.

Sério, essa desgraça quase me fez chorar na base da música

Eu deveria falar um pouco mais sobre a trama do filme, do diretor Ryan Coogler (que foi confirmado como o diretor de Pantera Negra), da atriz Tessa Thompson, que serve como interesse romântico pro Adonis, mas que tem muito mais importância do que parece, mas eu devo falar do como esse filme quase me quebrou em momentos três momentos.

Em um, o crédito vai todo para os atores. Nos outros dois, um elemento que sempre se fez presente nos filmes do Rocky aparece em Creed com uma roupagem moderna, mas por deus, que negócio fantástico. Eu estou falando da música do filme.

Eu não vou falar exatamente quais são essas sequências, mas são duas em que tudo já te deixa com aquela coisa de “que maravilha”, só pra começar aquela música e tudo fazer sentido. Eu não sei se vai ser indicada pra prêmios ou sei lá o que, mas a trilha original de Creed é fantástica. O compositor Ludwig Goransson tá de parabéns. De verdade.

Creed foi o primeiro filme que eu vi no cinema em 2016. Apesar de ser uma produção do ano passado que só chega agora no Brasil, eu considero ele um filme desse ano e digo que comecei realmente bem.

Em ano que tem Batman dando na cara de Superman, Homem-Aranha aparecendo ao lado dos Vingadores, Aliança vs Horda e tudo mais, é bem capaz de a história de um jovem aceitando o seu nome de direito seja aquela que vai mexer mais comigo.

Divulgação/Warner Bros

Divulgação/Warner Bros

PS: Um ENORME vacilo a Warner não usar o trocadilho da tradução original dos filmes do Rocky em Creed. Pra quem não lembra, Apolo Creed (o sobrenome do cara) foi traduzido como APOLLO DOUTRINADOR (Creed pode ser traduzido como doutrina, 2+2…). Sério, eu tava torcendo pra rolar um “Você é um doutrinador” em algum momento. Era o que faltava pra eu dar um mortal de costas.

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