Eu sou o tipo de pessoa que se lembra mais dos atores pelos seus personagens do que pelos seus nomes mesmo. Com apenas algumas exceções, eu vou sempre me empolgar com aquele filme que tem o Sherlock, acompanhar a série em que o Boromir é decapitado e dizer que o Mark Zuckerberg é a cara do Scott Pilgrim.

E eu sei que não sou o único, principalmente quando os próprios atores procuram esse tipo de identificação para alavancarem suas carreiras. Depois que Robert Downey Jr. e Tony Stark se tornaram praticamente a mesma pessoa, todos querem embarcar na onda dos super-heróis. E Birdman é exatamente sobre as consequências de você se transformar no personagem e sobre o que escondemos embaixo dessa máscara.

É claro que o novo filme do mexicano Alejandro Iñárritu não se trata apenas dessa mistura cada vez mais comum no cinema. Na verdade, ele parte deste ponto para levantar questões bem mais pessoais e profundas, sobretudo na relação do indivíduo com o mundo à sua volta e com ele mesmo.

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Em uma época em que as sátiras cinematográficas se resumem a besteiróis dos Irmãos Wayans, Birdman (ou A Inesperada Virtude da Ignorância) mostra como é possível fazer uma comédia de herói não apenas para cutucar um gênero que está tomando a indústria, mas para nos incomodar com nossa própria condição.

Por trás das máscaras

Para fazer essa leitura de nós mesmos, o filme nos apresenta Riggan Thomson, personagem de Michael Keaton que tenta, nos teatros, retomar sua carreira depois de sumir dos holofotes por mais de 20 anos. No entanto, apesar de seus esforços para promover a peça, ele não consegue se desvencilhar da figura de Birdman, super-herói que o consagrou nos anos 90 e que ainda o assombra como aquele fantasma do passado.

E aí está a primeira grande sacada do roteiro: a sutileza. Assim como acontece e verdade com muitos atores – estou olhando pra vocês, elenco de Friends –, a figura do artista e do personagem não é desassociada ao longo do filme e Thomson é constantemente lembrado por sua atuação como Birdman há duas décadas, seja sendo abordado por fãs ou mesmo pela imprensa. Mais do que isso, nem ele próprio parece lidar bem com essa situação, já que a figura do herói está constantemente cutucando sua consciência e, às vezes, dando as caras para lembrá-lo de como é muito mais que um ator do teatro da esquina, mas um astro de cinema e o primeiro dos super-heróis.

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E esse debate entre Riggan Thomson e seu alterego traz vários questionamentos. Você pode ir ao cinema e sair de lá achando que viu uma sequência para os Batman de Tim Burton ou mesmo uma bela referência à carreira de Michael Keaton, que praticamente sumiu depois de viver o Homem-Morcego. No entanto, com um jeito bem inteligente e bastante provocativo, o diretor cutuca a indústria como um todo e até o espectador, fazendo-o olhar para si mesmo.

A busca de Thomson por reconhecimento ao mesmo tempo em que o sucesso do passado sempre volta à tona para questionar sua carreira é algo que vai muito além do meio artístico e aflige a todos nós. Se você está desempregado (como eu) e questionando seu futuro profissional (como eu), Birdman se torna um belo tapa na cara. Afinal, o que vale mais: fazer algo relevante ou algo que te faça conhecido?

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É aí que a coisa fica interessante de verdade. Esse cutucão serve para que possamos olhar para nós mesmo por baixo das máscaras que criamos para nos esconder ou mesmo para aparentar algo. Cada um de nós possui sua própria “fantasia” e o trabalho do filme é exatamente ir além dela – o que consegue muito bem e de maneira bem humorada (embora incômoda).

Além disso, Alejandro Iñarritu utiliza muito da metalinguagem pra brincar com a própria indústria. A discussão sobre o cinema ainda ser arte ou ter se tornado apenas entretenimento vazio está ali, seja com diálogos que escancaram essa questão ou em momentos mais sutis, como o comentário de que Hollywood deu uma capa “até mesmo” para o Jeremy Renner ou que o Robert Downey Jr ganha milhões quando foi o Batman do Tim Burton que abriu as portas para essa leva de mascarados. O próprio fato de boa parte do elenco principal ter vindo de filmes de super-heróis, como Edward Norton e Emma Stone – além do próprio Keaton – é outra pitada de ironia à coisa toda.

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Por fim, não há como não mencionar o excelente trabalho do diretor mexicano. Para criar a sensação de teatralidade que cerca os ensaios da peça que movimenta a trama, Iñarritu investe em um ousado “plano-sequência” – ou quase isso, já que ele faz alguns poucos cortes disfarçados muito bem – que realmente nos dá a sensação de estarmos acompanhando os personagens pelos palcos, coxias e becos de Nova York. Mais do que isso, a própria tensão dos atores de trabalhar em algo com menos edição do que é feito habitualmente pode ser sentido em vários momentos do longa, o que torna as discussões mais vivas e o filme mais intenso.

Um herói, muitos rostos

A verdade é que Birdman é um daqueles filmes que atinge o espectador de diferentes formas. Ele pode ser desde a representação dos dilemas modernos em que todo mundo quer ser uma espécie de celebridade ao mesmo tempo em que seu trabalho se revela minimamente relevante até uma brincadeira com a carreira do próprio Michael Keaton – como Rocky Balboa foi para Sylvester Stallone.

Birdman errado

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No entanto, independente da forma como você enxerga a trama, ela sempre terá algo para lhe dizer. Uma reflexão, por mais banal que ela seja. Afinal, o que é o cinema além de uma enorme banalidade?

E, assim como o próprio roteiro brinca com a ideia de um ator decadente sair da sombra de um super-herói para fazer algo relevante, Birdman consegue fazer com que um “filme de super-herói” tenha muito a nos dizer. É a virtude da ignorância; a flor no lixo.

Ou ele é um filme sobre um ator que tem poderes de verdade, você quem sabe.

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