O Lobo de Wall Street é DiCaprio e Scorsese no filme mais insano do ano

A vida de luxo e excessos de Jordan Belfort (Leonardo DiCaprio), um corretor da bolsa de valores em Wall Street que vê nas ações de baixo custo um ticket para sua própria riqueza, é o tema central de O Lobo de Wall Street, filme que aproveita em sua forma e narrativa dos exageros do personagem principal para entregar performances ligadas no 220v de todos os seus atores, uma edição extremamente dinâmica e cenas bem gráficas de sexo e uso de drogas.

Jordan Belfort não é uma pessoa boa. Ele virou milionário enganando os outros. Mas o filme não mostra e não está preocupado em mostrar isso. Baseado na autobiografia de Belfort, O Lobo de Wall Street deixa bem claro, já nas primeiras cenas, que sua narrativa não é imparcial. Nesse caso, não somos uma “mosca na parede”. DiCaprio fala diretamente para a câmera, para nós, deixando claro que o filme será narrado do ponto de vista do personagem principal.

Esse truque de narrativa em particular está confundindo muitas pessoas, que estão criticando o longa e seu diretor por glamourizar as drogas e as falcatruas cometidas por seus personagens e por rebaixar as mulheres a simples objetos sexuais. Mas na verdade é que por se tratar da autobiografia de uma pessoa claramente imoral, o filme abre mão de qualquer tipo de julgamento de caráter e das ações de seus personagens, mostrando apenas um lado da história toda.

Wolf of Wall Street

A escolha de Scorsese por esse tipo de narrativa permitiu que o filme, então, trouxesse esse mundo de exageros também para a forma geral do longa e suas performances. O diretor filma e nos mostra tudo de uma maneira quase que pornográfica, fetichista, brincando assim com as aspirações financeiras e valores morais dos espectadores. Quase todos os personagens do filme são pessoas completamente malucas e sem escrúpulos, especialmente o grupo que trabalha com Belfort – como a cena da discussão sobre o que fazer com os anões mostra claramente – dando espaço pra ótimas atuações de todos os atores do filme e que renderam inclusive uma indicação ao Oscar de melhor ator coadjuvante para Jonah Hill.

Jonah Hill e Leonardo DiCaprio

Só que o destaque especial é Kyle Chandler, que tem a única atuação discreta do filme, porém não menos impressionante. Interpretando um agente do FBI que está tentando prender Jordan, Chandler divide a cena com DiCaprio em um momento que, pra mim, é o melhor da produção. Reparar na postura dos dois enquanto dizem suas frases e conforme o jogo vai mudando é assistir a uma aula de interpretação. E o fato dessa cena se passar dentro de um barco atracado também é extremamente emblemático. Genialidades Scorsezianas.

Sem nenhum tipo de frescura ou preocupação com sua imagem de galã, é quase cansativo ver DiCaprio em cena. Sua interpretação de Belfort é riquíssima em gritos e expressões corporais, tendo inclusive uma cena bem longa em que a piada se baseia quase que exclusivamente na performance corporal do ator.

O-Lobo-de-Wall-Street-pôster-nacionalPiada? Sim, eu disse piada. O Lobo de Wall Street é muito engraçado, provocando gargalhadas em muitos momentos. Scorsese conseguiu fazer desse filme um dos mais engraçados de sua carreira por benefício da escolha de seu narrador, que ao invés de tratar o uso de drogas como algo “pesado” leva tudo como uma boa brincadeira. Assim sendo, as cenas em que as pessoas aparecem semirretardadas, sem poder andar ou falar, com claros problemas de alcoolismo ou causando sérios danos à sua saúde ou a dos outros ganham um tom mais leve, como se tudo estivesse sendo descrito por um adolescente inconsequente – e de uma certa maneira está.

Outra coisa que ajuda muito no tom cômico do filme é a montagem. Neste filme, Thelma Schoomaker, que é uma senhora de 74 anos e editora da maioria dos filmes de Scorsese, faz um dos seus melhores trabalhos. A montagem de O Lobo de Wall Street é muito moderna, com muitas “gags” visuais – algumas inclusive com influência forte dos filmes de Wes Anderson.

Essa edição somada a um roteiro bem arriscado, atuações fortíssimas e uma trilha sonora como só a parceria Scorsese-Robbie Robertson consegue produzir transformaram O Lobo de Wall Street em um dos melhores filmes do ano, da carreira de Scorsese e com certeza o melhor de DiCaprio. Com 5 indicações ao Oscar esse é um filme extremamente ousado e que mesmo sem julgar seu personagem principal no final consegue nos mostrar a prepotência e arrogância do mesmo e fazer um comentário bem acertado sobre os valores da nossa sociedade. Afinal, se estamos todos atrás de uma vida de riqueza e luxo, quem pode realmente condenar Belfort por tentar?

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