The Room é um filme horroroso. É um filme que falha na sua proposta inicial de ser um drama, na proposta de ser um filme profissional, na proposta de ser alguma coisa séria. Ele é bem-sucedido (sem querer) em ser engraçado pela simples falta de noção de como ser humanos interagem entre si.

Talvez por isso, a ideia de adaptar The Disaster Artist: My Life Inside The Room, the Greatest Bad Movie Ever Made, livro de 2013 escrito por Greg Sestero, um dos astros de The Room, e Tom Bissell, parecesse tão interessante. Mostrar como diabos alguém conseguiu cometer aquela insanidade daria um bom filme.

O livro é excelente, mas quando James Franco comprou os direitos do negócio e anunciou que dirigiria E estrelaria como o bizarro Tommy Wiseau, o negócio ganhou proporções bem maiores. Só que, mesmo pra quem já leu o livro, o filme se mostra surpreendente pelo quanto ele consegue ser engraçado e triste ao mesmo tempo, levantando questões que talvez você não esperava.

Um louco sonhador

O Artista do Desastre começa com Greg, um jovem aspirante a ator cheio de insegurança em uma aula de atuação. Isso até que um sujeito BIZARRO resolve fazer uma apresentação na aula. Assim, Greg conhece Tommy, um sujeito que claramente tá nos seus 40 anos, tem um sotaque estranho (e claramente do leste europeu), mas que é destemido. Greg vê nessa coragem algo para se espelhar. Tommy vê em Greg um amigo. Quando nada dá certo para os dois, Tommy resolve que vai financiar o seu próprio filme.

Greg Sestero (Dave Franco) tentando ter uma carreira em Hollywood (Sim, é a Sharon Stone)

Toda o esquema do Wiseau tentando ser um ator respeitado e o Greg tentando ter uma carreira em Hollywood é basicamente a história que a gente não vê sobre a indústria do cinema. Histórias de pessoas que tentam, mas nem sempre conseguem algo de nome.

Em dado momento do filme, o Greg pergunta para atores no set de The Room, já em meio ao caos que a produção se tornou, por que ainda estão ali. E a resposta resume todo esse esforço:

“Porque nós somos atores, Greg. Mesmo o pior dia num set de filmagem é melhor que o melhor lugar em outro lugar”

Essa fala, assim como os últimos minutos do filme acabam por mostrar o verdadeiro significado do filme. O de tentar realizar seus sonhos, acima de tudo e, no caso do Tommy Wiseau, de todos.

É interessante ver que sim, o Wiseau é uma pessoa estranha, muitas vezes uma pessoa horrível, é também uma pessoa carente pela aprovação daquele que ele julga serem seus pares. Tudo porque ele tem o sonho de ser visto como alguém talentoso.

Talvez por isso os últimos minutos do filme tenham tanta força. O fracasso e o sucesso do esforço feito por Wiseau acabam mostrando exatamente o que é Hollywood ou até mesmo a vida.

É fácil ver as reais intenções do “diretor” quando ele criou a história de The Room, fazendo com que a sua reação frente à maneira como o público aceitou o seu filme seja um os pontos mais fortes do filme e da forma como o James Franco resolveu abordar toda a história.

Existe certa melancolia ao longo de O Artista do Desastre, filme que poderia muito bem ter caído na paródia pelas situações bizarras (e baseadas em fatos reais), mas o Franco traz sensibilidade ao papel do Tommy Wiseau, fazendo com que você sinta o que ele sente quando colegas de set caçoam do seu jeito ou veem seu filme.

O sucesso no fracasso

Como já citado, um dos elementos que O Artista do Desastre consegue abordar muito bem é a maneira como Tommy Wiseau planejou o seu filme e como ele foi aceito pelo público.

Claramente, o diretor começou sua empreitada tentando criar algo épico, na mesma veia de filmes clássicos estrelados por James Dean. Talvez por isso ver a “carreira” do Wiseau após o seu lançamento e como The Room é vendido, junto com o que vemos em O Artista do Desastre (tanto filme quanto livro) e é possível aprender uma lição importante para a vida.

Todos nós temos sonhos e buscamos o sucesso de alguma forma. Só que, muitas vezes, tudo pode ruir perante os nossos olhos, independente do quanto nos esforçamos para tornar tudo realidade. É a velha máxima de “Faça planos e veja a vida desfazê-los”. A maneira como você reage a isso pode ser um indicativo da sua personalidade.

Você pode simplesmente abandonar tudo, aceitando a sua falha e abandonando tudo aquilo pelo qual batalhou, talvez focando em outros sonhos e caminhos. Ou você pode ver o fracasso como apenas mais uma fase do seu caminho para o sucesso.

Tommy Wiseau com sua estranheza absurda escolheu a segunda opção. No meio de uma produção problemática, com um déficit de talento que chega a ser digno de nota o diretor demonstrou uma força de vontade e uma habilidade ímpar de mudar a narrativa da sua vida, tomando as rédeas de tudo e usando a força da pancada que levou para empurrá-lo ainda mais na direção daquilo que sempre almejou, que era notoriedade.

E pensando dessa forma, O Artista do Desastre é um filme inspirador. Um filme que no meio de suas situações bizarras e com um personagem principal estranhíssimo, mostra mais uma vez como filmes podem contar histórias que revelam a alma de sonhadores e como transformar algo ruim em algo que agrega à sua vida.

É estranho pensar nisso sobre uma história com um cara que parece um vampiro e não sabe direito como é a anatomia de uma mulher, claramente simulando sexo com o seu umbigo, mas é verdade.

Ao final de o Artista do Desastre, depois de rir e, sem brincadeira, quase derramar uma lágrima ou duas, a vontade que tive foi a de correr atrás dos meus sonhos, de tornar meus planos em algo real, independente do resultado.

Se Tommy Wiseau tentou criar algo que inspirasse alguém com The Room, ele conseguiu. A parte diferente é que não foi com o filme, mas sim com a história da sua criação. Vendo como Wiseau pensa e age, ele provavelmente diria que esse foi o plano dele desde o início.

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