Não! Não olhe! (Review)

Não! Não olhe!

Jordan Peele pode ser considerado como um dos grandes diretores em atividade em Hollywood com um currículo relativamente minúsculo, mas cada novo filme do cara entrega bem mais do que o esperado e nem sempre no exato momento em que você os assiste. Não! Não Olhe!, nome horrível dado a Nope no Brasil, é exatamente assim, entregando um filme totalmente direto e até simples em uma primeira olhada, mas que traz uma mensagem um pouco mais interessante quanto mais se pensa nele.

Não! Não Olhe!, ou como gosto de chamar “Nem Fodendo”, é basicamente um filme que pode ser dois ao mesmo tempo. A mensagem que ele passa, como comentado, é bem direta e pode ser a interpretação que muitas pessoas vão ter do filme. Uma boa interpretação, ele é bem satisfatório. Só que o outro filme ali traz um comentário pertinente sobre a forma como consumimos cinema hoje em dia.

Para falar um pouco sobre isso, é necessário trazer uma pitadinha de spoilers, então antes disso, se você apenas quer saber se Não! Não Olhe! vale a pena, saiba que a resposta é um grande SIM, VALE PRA CARAMBA!

Dito isso…

Não! Não Olhe! é um filme de monstro

Não! Não Olhe! conta a história de uma família que vai até os primórdios do cinema nos EUA, cuidando de animais que são usados em produções de cinema e TV. Com dificuldades financeiras, eles chegam até a vender os seus cavalos para manter tudo em dia, mas o céu do rancho acaba sendo o cenário de uma invasão que começa a levar os bichos.

Os dois irmãos, interpretados por Daniel Kaluuya e Keke Palmer, resolvem investigar e descobrem nisso uma chance de ganhar dinheiro com tudo isso ao gravar os acontecimentos. A partir daí, Não! Não Olhe! passa a acompanhar essa ideia e como ela vai ficando cada vez mais caótica, ao ser revelado exatamente o que está acontecendo no local.

Não! Não olhe!

Frente a isso, o filme é bastante direto, ao mostrar os irmãos (e um funcionário de uma loja de eletrônicos) tentando registrar o bichão (é um ET) e as coisas só vão ficando cada vez mais caóticas. Nisso, o filme se torna uma experiência tensa, mas nunca no nível dos últimos dois filmes do Jordan Peele.

Existe ali a tensão, mas tudo é bem mais fácil de digerir do que Corra e Nós. Tudo isso culmina em um terceiro ato divertido para cacete, com direito a uma referência a Akira que só deixa tudo mais legal. Só que aí ele termina e é isso aí. É um filme de monstro do verão americano. Bem feitinho e tudo mais. Show!

Só que aí você para pra pensar um pouco no filme e…

Não! Não Olhe! é uma crítica à fascinação ao espetáculo

A grande sacada de Jordan Peele com esse filme é que ele entrega exatamente aquilo que ele tá tentando fazer com que você entenda que é um problema. Ao entregar todo um espetáculo de um filme de monstro, com suas cenas grandiosas e barulhentas, você acaba deixando passar alguns elementos que ele joga ao longo da trama que parecem não fazer muito sentido, mas servem como uma alegoria ao fato de que os espectadores estão sempre fascinados com o espetáculo, mas não se importam muito com o que acontecem ao seu redor.

Isso pode ser visto como uma maneira de fazer um comentário sobre o atual estado da indústria do cinema nos EUA, que foca apenas em filmes blockbusters, ignorando todo o resto. Pode também ser um comentário sobre a forma exploratória que equipes e pessoas reais, como você e eu, são tratados, mas que são esmagados com a desculpa que é pelo espetáculo.

Existem outras interpretações que podem até fazer muito mais sentido, e eu acho que é essa a grande graça do filme. Quando eu saí do cinema, eu 100% tava aceitando a ideia de ser apenas um filme de monstro e dane-se. Ele é legal sendo assim. Só que conversando com um amigo sobre o filme, comecei a pensar nas possibilidades de o diretor estar passando algo além daquilo e desde então, não parei mais de pensar nele.

No final das contas, mais uma vez, Jordan Peele mostra que sabe muito bem lidar com os temas que aborda, sempre trazendo um elenco muito legal (eu diria que o destaque do filme está para Keke Palmer e Steven Yeun, numa cena bem específica que me deixou impressionado de verdade com o cara) e entregando um filme que deixa um gostinho de “preciso ver esse negócio de novo”.

Que continue sempre assim.