Me Deixa: Demolidor — O Filme

O começo dos anos 2000 foram interessantes para os fãs de quadrinhos e de cinema. Em 2000, a Fox lançou X-Men, o primeiro filme baseado em quadrinhos em anos e que não era uma droga. Um pouco antes, o lançamento de Blade tinha demonstrado o potencial de filmes mais sérios, mas por ser um personagem mais obscuro, não fez tanto barulho quanto o filme dos mutantes.

Ali, os estúdios de Hollywood viram potencial em franquias. O mundo parecia estar pronto para uma nova leva de filmes baseados em histórias em quadrinhos. Em 2001, a Sony começou as gravações de Homem-Aranha, enquanto a Fox se preparava para adaptar Demolidor para o cinema.

Em 2002, em um mundo pós-11 de setembro, Homem-Aranha, um herói com uma vibe muito mais “heróica” arregaçou todo mundo nas bilheterias e mostrou que o público tava sedento por esse tipo de conteúdo. Em 2003, a Fox lançou Demolidor e foi detonada por meio mundo.

Me lembro de ter gostado do filme quando vi no cinema, mas eu era (sou) um verme. O tempo passou e uma versão do diretor foi lançada em DVD e blu-ray, que acabou sendo elogiada pela crítica. Será que o filme do Demolidor é realmente tão bosta assim e o Ben Affleck cagou em tudo (jamais cagaria) ou rolou uma falta de noção do estúdio, que não soube como abordar um personagem sombrio naquele momento?

Resolvi colocar o blu-ray da edição do colecionador pra rodar (sim, eu tenho), assisti ao clipe do The Calling e pensei no Disk MTV de 2003 e agora venho aqui para falar sobre o filme do Demolidor. Por favor, caso esteja no computador, clique no botão de play no canto superior direito da tela e venha comigo.

How can you see into my eyes like open doors?

120413075915895077Demolidor: O Filme apresenta a origem do herói de maneira bem convincente, por mais que ela seja um pouco cretina. Um moleque fica cego por causa de um acidente com lixo tóxico, pai era boxeador, vira capanga de mafioso, toma na cabeça, moleque vira órfão, cresce, é advogado e dá porrada em bandido.

Tá tudo ali, só que tudo é contado de um jeito “filme do início dos anos 2000”, então tudo é muito claro, muitas vezes nem parecendo se passar na nossa realidade. Isso era aceitável em um filme como Homem-Aranha, mas o Demolidor é sombrio, sério e aí eu coloco a culpa na maneira como o herói é abordado.

A história, o próprio personagem, são mais adultos e tentar contar tudo usando a mesma fórmula que funcionou com Homem-Aranha acaba quebrando o clima que poderia ser passado. A versão do diretor consegue cortar muito das babaquices que a Fox enfiou no filme, deixando-o mais violento e adulto.

PORÉM, ainda existem cretinices, como a cena do Matt Murdock colocando o uniforme e fazendo umas cabriolagens com os bastões, e aquela cena RIDÍCULA da luta entre o cego e a Elektra no parquinho. Sério, quem pensou que fazer um cara perseguir uma mina pra saber o nome dela, aí a mina resolve sentar a mão no cara (que inclusive, é cego) era uma boa ideia pro filme?

Call my name and save me from the dark

Um dos elementos do filme do Demolidor que muita gente achou que poderia ter sido feito melhor é o romancezinho entre o Matt e a Elektra. Por um lado, foi bom pro Ben Affleck e pra Jennifer Garner, pois eles se conheceram e hoje são casados e com filhos e parabéns pro casal.

TOMA, AMOR! <3
TOMA, AMOR! <3

Só que no filme, o negócio era meio cretino e açucarado demais pra uma história do Demolidor. Aquela cena do telhado, com gente clamando por ajuda, o cara ouvindo tudo, e a mina falando “Fica” e filho da mãe FICA pra dar um cutuco, é vergonhosa. Na versão do diretor, ela não existe. Aí você vê que tem coisa que foi a Fox mesmo que resolveu colocar o dedo e cagou tudo.

O romance entre os dois ainda é meio manco nessa versão, mas é interessante ver um interesse amoroso de super-herói que não serve de dama em perigo, apesar dos pesares. O relacionamento dos dois realmente impulsiona a trama, mas não completamente como na edição que foi aos cinemas em 2003.

Wake me up

DunkenkingpinNa edição do diretor de Demolidor, a trama ainda é bem em cima de quem diabos é o Rei do Crime. Interpretado pelo saudoso Michael Clarke Duncan, o cara tem a apresentação mais OG do filme, com uma música marota e uns assassinatos pra mostrar que ele é mal, tal qual o Dogão.

Enquanto no filme original as coisas meio que eram resolvidas meio que na cagada, na edição do diretor, existe todo um subplot que foi retirado da versão dos cinemas. Nele, o assassinato de uma garota de programa e a acusação de um sujeito (QUE É INTERPRETADO PELO COOLIO, MALUCO), fazem Matt e Foggy Nelson investigarem o caso. Isso acaba levando a provas que incriminam Wilson Fisk e o revelam como o Rei do Crime.

É uma trama que algumas vezes parece não ornar muito com o esquema “Olha a Elektra e mimimi”, mas fazia muito sentido pro filme. Era mais fácil ter enfiado a Elektra de um jeito mais orgânico na trama do que simplesmente ignorar algo bom pra trama só porque não combinaria com o romancezinho.

Save me from the nothing I’ve become

Com as duas horas de filme terminadas, eu consigo dizer que Demolidor não é um longa ruim. O maior problema dele é muitas vezes a maneira como ele aborda o personagem e seus temas. Só que ele ainda consegue ser divertido e entreter por toda a sua duração.

Ok, essa cena é foda
Ok, essa cena é foda

Você vê que tem muita ideia legal jogada ali no meio, mas tem muita coisa que alguém falou “ISSO VAI FICAR IGUAL AO GIBI” e colocaram sem pensar que não faria sentido algum. Exemplos: Demolidor vai atrás de um cara que estuprou e espancou uma mulher, mas foi absolvido. Após passar por um bar de motoqueiros que ouvem Nickelback, ele persegue o sujeito até o metrô, onde o cara cai nos trilhos e é cortado ao meio. Não aparece, mas ele é.

Em seguida, policiais estão na cena e Ben Ulrich, jornalista que está investigando o Demolidor, aparece por ali. A polícia nega envolvimento do vigilante, só pro Ulrich jogar uma bituca no chão e o DD do uniforme do Demolidor aparecer no chão, em chamas, e refletido na lente dos óculos do cara.

O take do reflexo é maneiro pra cacete e numa HQ, funcionaria. Só que não faz sentido algum no filme. Você vai querer me dizer que o Demolidor, CEGO, deixou um cara ser cortado ao meio por um trem, pegou algum produto inflamável, desenhou o seu símbolo no chão LIKE A CORVO, na esperança que alguém jogaria uma bituca ou algo do gênero pra acender as chamas? QUAL É O SENTIDO NESSA PORRA?

E o pior é que o filme tem várias dessas cenas cretinas, que parecem legais, mas se você para pra pensar, são ridículas.

Bring me to life

Só que mesmo com esses problemas, Demolidor ainda é um filme divertido. Sim, o Ben Affleck não está fantástico como Matt Murdock, mas é perceptível que ele se esforçou. E foi antes dele ter amadurecido e melhorado como o ator. É Ben Affleck da época de Bennifer, cara.

O resto do elenco é competente, com direito ao Jon Favreau sendo bem legal como Foggy Nelson, anos antes de resolver dirigir Homem de Ferro, e o Michael Clarke Duncan é sensacional como Wilson Fisk, ainda que seja um tanto exagerado. E nunca alguém quebrando o joelho de alguém doeu tanto de assistir como no final com ele.

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No final das contas, Demolidor: O Filme não é algo que mereça tanta bosta como recebeu (pelo menos não a sua versão do diretor). O filme está longe de ser perfeito, mas ele parece muito mais um reflexo de uma época em que os estúdios ainda não sabiam direito como adaptar todos os quadrinhos. Se um funcionou de um jeito específico, a galera tentava reproduzir a fórmula para todos. Foi assim com Demolidor e Justiceiro, dois personagens notavelmente adultos e sombrios, mas que foram abrandados para um público que tava jogando dinheiro na cara da Sony e seu Homem-Aranha.

No fim das contas, Demolidor gerou boas coisas, como um uniforme maneiro pro herói, um casamento e filhos pro Ben Affleck e pra Jennifer Garner, além de experiência o suficiente pro Affleck não repetir alguns erros e se tornar o melhor Batman do cinema (EU ACREDITO!). Isso, uma trilha sonora que toda vez que eu ouço, volto a ter 16/17 anos e esse trailer transudo.

PS: Affleck was the bomb in Phantoms, yo!

A coluna Me Deixa reúne cretinices que o pessoal do Puro Pop (ou qualquer pessoa que nós resolvermos colocar aqui pra falar) gosta, mas que todo mundo desce a lenha. É o nosso cantinho para falarmos sobre os nossos guilty pleasures da cultura pop, defendendo, descendo a lenha, mas guardando tudo num lugarzinho do <3.

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