Em 2000, X-Men ajudou a ressucitar o gênero de adaptações de quadrinhos no cinema, mostrando que era possível fazer filmes de HQs que são fieis ao material original e ainda render projetos que prestam, ao contrário de Batman & Robin. Com o sucesso do filme dos mutantes, a Sony, detentora dos direitos do Homem-Aranha, finalmente começou a produção de uma adaptação do maior herói da Marvel.

Esse pôster é raro e maneiro

Em 2002, o primeiro Homem-Aranha chegou aos cinemas e foi um sucesso absurdo, praticamente criando o modelo para adaptações de quadrinhos que foi seguido por, pelo menos, 5 anos. Com Homem-Aranha 2, lançado em 2004, Sam Raimi, o diretor dos filmes, conseguiu criar uma das melhores adaptações do Aranha, sendo até hoje o melhor filme do herói. Novamente, o filme fez sucesso, rendendo uma grana VIOLENTA pra Sony.

Era de se esperar que o terceiro filme, programado para ser lançado em maio de 2007, fosse tão bom quanto. Na época, pouco se sabia sobre os bastidores do filme, algo que foi esmiuçado anos depois. Porém, naquele período glorioso de trailers e imagens, Homem-Aranha 3 realmente parecia algo grandioso e com tudo pra ser o melhor da série. Aí o filme estreou.

Hoje é de conhecimento geral que o Sam Raimi odiava o Venom e que o vilão foi enfiado no filme contra os pedidos do cara, que claramente tocou o foda-se grandão nesse filme. Você pode defender o quanto quiser, mas vários trechos da história parecem muito o Raimi falando “Não queriam isso? Agora toma”.

E por que eu tô falando disso tudo agora? No último dia 4 de maio, Homem-Aranha 3 completou dez anos desde a sua estreia. Eu precisava falar sobre ele porque é claro que eu precisava.

Homem-Aranha é o meu personagem favorito e eu adorava aqueles filmes. Ainda gosto muito dos dois primeiros, perdi as contas de quantas vezes os vi, sei as falas e toda aquela palhaçada de fã. Só que Homem-Aranha 3 me decepcionou tanto que, após sair da primeira sessão do filme, ainda no dia 4 de maio de 2017, a única coisa que eu tinha pra mim é que nunca mais assistiria aquele negócio.

Tanto é que, apesar de várias vezes ter visto alguns trechos quando o filme estava passando na TV, eu nunca mais sentei e vi do começo ao fim. Completando dez anos do seu lançamento, achei justo exorcizar esse demônio e finalmente assistir Homem-Aranha 3 mais uma vez pra saber se eu tava esperando demais ou se é um filme tão ruim quanto eu lembro.

Um Homem-Aranha feliz

De um jeito bem simples, Homem-Aranha 3 pode ser resumido como o momento em que Peter Parker finalmente está feliz em ser o Homem-Aranha. Depois de alguns anos sofrendo a famigerada Parker Luck, em que cada coisa boa que acontece é seguida de uma desgraça gigantesca, Peter finalmente tem aquilo que queria.

Na sua vida pública, Homem-Aranha é considerado um herói por toda a cidade de Nova York. Peter consegue estudar normalmente, finalmente tem Mary Jane, o amor da sua vida, como namorada. Basicamente, está dando tudo certo. É aí que a tal “Parker Luck” entra em ação e estraga tudo.

Vendo dessa forma, o filme segue fiel ao espírito do quadrinho. Só que as coisas que acontecem são bem problemáticas, ainda que façam sentido dentro do que foi apresentado nos dois filmes anteriores.

O Peter não evoluiu. Eu não sei até que ponto isso é culpa do Tobey Maguire, da vontade do Sam Raimi de ter o Peter da década de 60 como a versão do cinema, mas ele é o nerd bobo e inocente que era antes de uma aranha picá-lo. Percebam que já se passaram alguns anos desde que o Peter foi morar sozinho em NYC e, mesmo assim, ele continua EXATAMENTE A MESMA PESSOA do primeiro filme, o que é mais irreal do que o fato de ele ter poderes de aranha em vez de ter morrido com a picada.

Outro problema do filme é o Harry, que ainda busca vingança pela morte do pai, mas nunca para pra ouvir exatamente o que o Peter tem a dizer sobre o acontecido. E aí, sabe-se lá como, o cara consegue recriar a experiência que gerou o Duende Verde (algo que aconteceu por acidente no primeiro filme) num canto de casa, cria todo um novo arsenal e se transforma numa versão X-Games do Duende Verde.

É bom lembrar que o mesmo Harry não conseguia notas tão boas em ciências como seu antigo amigo Peter, mas aqui o cara fez tudo isso praticamente sozinho.

Outro problema é o Flint Marko, também conhecido como Homem-Areia. Apesar de ele ser uma das coisas boas do filme (já falo porque), toda a história que muda a origem do Homem-Aranha, colocando o Marko como o sujeito que matou o Tio Ben é tão desnecessário quanto um novo buraco na tua cabeça.

Isso acaba sendo usado como o tema do filme, de perdoar os erros do passado, mas é feito de um jeito tão cretino que só dá raiva por terem mudado o negócio e pelo fato de o plot do Marko, um ladrão qualquer que tentava arrumar dinheiro pra cuidar de sua filha doente, era suficiente para fazer o público se importar.

Falando sobre o Marko, a cena dele se tornando o Homem-Areia consegue ser uma das mais bonitas dos três filmes e uma das mais imbecis também.

Se o trecho em que ele tenta se levantar e alcançar um colar com a foto da filha é realmente bonito, a origem de verdade é idiota pelo simples fato de ele cair em poço com uma experiência e dar merda. O pior mesmo está em uma cientista que avisa que tem algo grande no local e um outro, sem nem pensar duas vezes, falar “É só um pássaro, continua”. Porra, cara. Se esforça um pouco.

Só que esses não são os maiores problemas de Homem-Aranha 3. Veja bem, olhando de uma maneira bem tranquila, a primeira hora do filme é bem aceitável. Tem suas bobices, mas nada que ofenda o espectador. Só que aí chegamos na marca de 1h10min50s e isso aqui acontece:

Pode parecer birra com o Emo Parker, mas é nesse exato momento que o filme desanda e não consegue mais voltar. É a partir daqui que todos os seus problemas ficam mais aparentes e, por incrível que pareça, ainda consegue afundar coisas que eram ignoradas nos filmes anteriores.

Mary Jane é uma pessoa horrível

Quando o Sam Raimi escolheu a Mary Jane como par principal do Homem-Aranha ainda no primeiro filme, muita gente achou esquisito e tomou como resposta “É a personagem que todo mundo tá acostumado”, lembrando que a Gwen Stacy não era mencionada nos quadrinhos há muito tempo. Uma escolha cretina, mas compreensível.

O problema é que, em momento algum, a Mary Jane do cinema se parecia com a Mary Jane dos quadrinhos. Enquanto a MJ dos quadrinhos era alegre, festeira e, quando necessário, companheira do Peter, nos filmes ela nunca teve muito uma personalidade.

Mesmo assim, o primeiro filme começava com “Essa é uma história sobre uma garota”. Os três filmes mostram a MJ como o Peter a vê e, por causa disso, você nunca consegue ver ela como uma pessoa e sim como “amor do Homem-Aranha”. Por causa disso, muita coisa que acontece é deixada de lado “em nome do amor”. Só que graças ao comportamento da MJ no terceiro filme, a primeira vez que ela parece mostrar um pouco melhor quem é e reage ao mundo, você olha pros outros filmes e pensa “talvez essa moça não seja tão legal assim”.

No primeiro filme, ela toca a vida dela, tem problemas em casa, mas o Peter a vê como a melhor coisa do mundo, já que é apaixonado por ela desde criancinha. Só que por causa disso, todas as coisas ruins que acontecem com ele são um “efeito borboleta” de algo relacionado a ela.

Ele é picado porque ficou no lugar pra tirar foto dela. Ele resolve lutar pra ganhar dinheiro e comprar um carro porque ela gosta de sair com quem tem carro. Isso faz ele lutar, estar no lugar pra não receber, deixar o ladrão fugir e o Tio Ben morre. Ok, são escolhas dele, mas quem tá no centro de tudo?

No segundo filme, o Peter continua se quebrando, meio sem jeito pois é o Homem-Aranha e precisa salvar NY, mas vive levando patada da MJ que ficou magoada porque resolveu, no meio de um enterro, que seria legal falar que gostava do cara e tomou um toco. Ela não o trata tão bem assim e fica noiva de outro. Quando acontece de finalmente confirmar que ele era o Homem-Aranha, ela larga o noivo no altar pra ficar com ele. Quatro minutos depois, sirenes mostram que o Homem-Aranha se faz necessário, ela fica no apartamento dele com a maior cara de bunda DO MUNDO. O que ela queria? Que ele parasse de ser o Homem-Aranha?

Então chegamos no terceiro filme. Ela tá na Broadway, mas não é uma grande cantora, algo necessário já que está estrelando um musical. A crítica malha a performance dela. O Peter tenta levantar a moral da mina, dando como exemplo a sua experiência de vida, já que o Homem-Aranha só tomava na cabeça, ele não desistiu pois era a coisa a certa e no final, as coisas começaram a dar certo. A resposta da MJ é “Isso não é sobre você. Eu tô com problemas”.

Pois é

Conforme a história avança, a impressão que fica é que a Mary Jane sente uma leve inveja do momento do namorado e, sempre que ele parece estar feliz com o fato de não estar tomando na cabeça todo dia, ela fica emburrada. Basicamente, quando ele era um fudido e ela tava por cima da carne seca, tava lindo. Ela toma um tombo, o cara tenta conversar pra levantar a moral e ela acha ruim e bota a culpa nele.

O cara vacila dando o beijo na Gwen? Vacila, isso não dá pra negar. Só que a reação dela é ir e dar um beijo no ex e melhor amigo do cara.

O terceiro filme confirma que, ok, ela era o amorzinho de infância do Peter, mas como ela é horrível.

Venom. Por que?

Como falar de Homem-Aranha 3 sem falar da MAIOR CAGADA QUE O SAM RAIMI JÁ FEZ? Hoje é de conhecimento geral que o Raimi não gosta do Venom e tinha planos de colocar outro personagem no filme. Quando o produtor Avi Arad obrigou a inclusão do vilão para “vender bonequinhos”, o cara simplesmente tocou o foda-se.

Ele até começa o filme tentando. Mesmo com um meteoro silencioso, que cai a 30 metros do Peter e da MJ e eles não ouvem nada, a ideia do simbionte é legal ali. O Eddie Brock do Topher Grace é equivocado, mas poderia funcionar.

Não vou mentir. Essa imagem foi meu wallpaper por quase um ano

Só que o Raimi parece não entender muito bem o apelo do negócio e já começa cagando na concepção do uniforme negro do Homem-Aranha. Nos quadrinhos, o simbionte alienígena se une ao corpo do Peter, criando o uniforme maneiro. Em Homem-Aranha 3, ele se junta AO UNIFORME do Peter, o que gera um problema aí.

Nos quadrinhos, ao criar sozinho o uniforme, o simbionte também gera outras roupas, fazendo com que o Peter fique constantemente com ele, já que é prático e o deixa ainda mais forte, fazendo com que ele não sinta que o alien está tomando conta do seu corpo.

No filme, por estar ligado ao uniforme do Homem-Aranha, toda a questão de simbiose acaba se tornando uma escolha do Peter. Novamente, o Sam Raimi parece não entender direito o apelo do negócio e mostra que o seu Peter Parker é, no fundo, um revoltadinho violento que só precisa de um empurrão pra se mostrar assim.

Fora que a imagem que o Sam Raimi tinha em 2007 de um revoltado violento é um emo que dança na rua e em bar de jazz, que é cuzeiro com o chefe e dá em cima da secretária dele. Isso porque, em dado momento, o Curt Connors fala que o simbionte amplia características do seu anfitrião, especialmente agressividade. Basicamente, o Peter dos filmes era um vacilão em potencial.

Mas ele se livra do uniforme preto e ele cai em Eddie Brock, numa cena que, até o momento em que começa a transformação, é especialmente vergonhosa (Quem vai na igreja pedir humildemente pra Deus matar alguém?). Quando o simbionte de fato cai no Brock, a criação de Venom é realmente interessante.

O visual do vilão é melhor do que se esperava de um filme dirigido por alguém que odeia o personagem, mas ele acaba se tornando uma versão com uniforme preto e uma boca que não é grande o suficiente. Não rola muito o papo no plural como “WE ARE VENOM” e coisas do tipo, mas ele dá um cacete no Homem-Aranha em todos os momentos que eles saem na mão.

Talvez por isso, o fato de ele ser derrotado com UMA BOMBA ALEATÓRIA irrite tanta gente. Não tem muito soco, tem um golpe de sorte e vuash.

Uma oportunidade perdida

Homem-Aranha 3 irrita mais pois todos sabiam o que aquela equipe conseguia fazer, por causa dos dois filmes anteriores. A impressão que fica é que o Sam Raimi não soube lidar com alguém com mais poder falando “Vai e faz isso”. Enquanto ele tava tomando as decisões, foi que é uma beleza. Colocaram algo pra ele fazer que não queria, peidou na farofa.

E o que mais me deixa triste é que ele poderia ter contornado a parada. Ele poderia ter colocado toda a história do uniforme negro nesse filme, junto com o lance do Harry e do Homem-Areia. O terceiro ato poderia ser ele se livrando do simbionte e enfrentando seus demônios como somente Homem-Aranha, deixando o Brock e o Venom para um vindouro quarto filme. MAS NÃÃÃÃÃÃÃÃÃÃÃO. Vamos gastar a carta agora e foda-se.

É tão ruim como lembrava?

Vou ser extremamente sincero ao falar que o filme não é tão horrível quanto eu lembrava. A primeira hora de Homem-Aranha 3 tem uns tropeços, mas ainda é tranquila e dá pra falar que é uma sequência de Homem-Aranha 2 na questão de qualidade. O problema está na segunda metade, quando tudo desanda e não dá sinal de voltar atrás.

A história, a ação, os personagens, tudo desanda. Nada faz sentido e tudo dói.

Não é a toa que a Sony começou a preparar um reboot logo em seguida e deu um prazo pequeno pro Raimi criar o roteiro de um quarto filme (que teria a Gata Negra e o Abutre). Apesar de cada um ter ido pra um lado de maneira amigável, Homem-Aranha 3 deixou claro o quanto o Raimi não sabia, pelo menos naquele momento, lidar com algo imposto a ele. Foi uma sequência de erros que, de certa forma, acabam manchando aquela poderia ser a primeira grande trilogia de adaptações dos quadrinhos.

O reboot não funcionou tão bem e, agora, é hora da própria Marvel tocar o personagem no cinema. Mesmo assim, fica aquele gostinho amargo na boca, vindo de dez anos atrás, embalado por uma dancinha cretina.

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