A Mulher Rei (Review)

Um filme épico sobre guerreiras de um reino da África lutando contra o avanço de outro reinado, estrelado por uma atriz de 57 anos, poderia ser algo que dificilmente seria produzido em Hollywood até há alguns anos atrás, mas A Mulher Rei, novo filme estrelado pela ganhadora do Oscar Viola Davis, não só existe como é certamente um dos melhores filmes de 2022.

A Mulher Rei conta a história de Nanisca, general das Agojie, exército totalmente feminino do reino de Daomé, no ano de 1820.  Ela deve liderar o exército contra o avanço de outros reinos, que buscam dominar a região. No meio disso tudo, o filme foca em uma jovem, Nawi, que ao se recusar seguir a vontade de seus pais, que querem vendê-la para casar, acaba sendo entregue ao rei e tem a oportunidade de se tornar uma das Agojie.

Viola Davis é uma força da natureza

É comum encontrar um vídeo da Viola Davis em que ela fala como sempre é comparada com atrizes como Meryl Streep, tem as mesmas credenciais que ela e outras, mas não recebe o mesmo. A Mulher Rei mostra, mais uma vez, o quanto ela está certa e como ela não só é um monstro atuando como consegue, no alto dos seus 57 anos, parecer completamente crível ser uma guerreira que arrebenta todo mundo na porrada.

A Mulher Rei Viola Davis

É realmente impressionante como desde os primeiros momentos do filme, a atriz surge com uma aura diferente de todo mundo, fazendo você realmente acreditar na sua força, capacidade e vontade de MOER OS CARAS NA PORRADA. Isso é algo bem legal no filme, pois em momento algum você duvida que aquelas mulheres possam de fato ser a elite do exército de Daomé e a Viola Davis na frente disso tudo é que torna tudo mais aceitável.

Só que aí o filme começa a mostrar outros lados de Nanisca, a general das Agojie, e a atriz mostra que sabe muito bem o que tá fazendo, mostrando uma vulnerabilidade e humanidade, muitas vezes sem dizer uma palavra, que é impressionante. Realmente, a Viola Davis poderia ter só feito um trabalho digno e deixar rolar, mas a mulher fez A Mulher Rei COM VONTADE. Braba demais.

As Agojie, Pantera Negra e África

A maneira como as Agojie, exército feminino que realmente existiu na África, é apresentada desde o começo do filme é realmente legal pois como dito anteriormente, você nunca questiona que aquele grupo de mulheres pode realmente decidir uma batalha. Seja pelo treinamento delas, mostrado sob a perspectiva da jovem Nawi, ou pela maneira como elas se impõem fisicamente, nada parece forçado na tela. Não é atoa que as “amazonas africanas” serviram como inspiração para as Dora Milaje, exército de guerreiras de Pantera Negra.

E chuto que Pantera Negra, por mais que seja mais um filme de gibi entre dezenas, pode ter ajudado bastante em fazer A Mulher Rei parecer uma boa aposta de Hollywood. A máquina da Marvel fez com que a adaptação dos quadrinhos fosse feita e, mesmo com toda a sua fantasia, mostrou um lado, ainda fictício, da África que muitos não estavam acostumados. Isso porque sempre que o continente e seu povo é mostrado em filmes de Hollywood, sempre é de um jeito bem específico, como subdesenvolvido, sempre à mercê de europeus, ou mostrando as dificuldades que a região enfrenta até hoje.

São poucos os filmes grandes nos últimos anos que mostram a África como um lugar rico, além dos seus recursos naturais, com um povo forte, com tradições e crenças que os tornam únicos. Pantera Negra pode ter colocado na cabeça de muita gente que isso é possível. A Mulher Rei continua nesse embalo, obviamente muito mais pé no chão e inspirado na história, o que acaba deixando-o bem mais interessante. É impressionante como assistindo ao filme, em vários momentos ter ficado com vontade de aprender mais sobre o continente e sua história, indo além do básico que foi ensinado nos anos que passei na escola. Isso porque a história africana, que deveria ser tanto ou mais divulgada nas escolas brasileiras, é na maioria das vezes deixada em segundo plano e o foco vai todo para a história europeia.

Eu divago aqui, mas A Mulher Rei me fez pensar do quanto nós perdemos por simplesmente nunca termos sido expostos à cultura africana, sua história e costumes, mostrando a riqueza do continente e seu povo, além do básico “e aí europeus escravizaram e trouxeram africanos para o Brasil”. Tem muito ali para se conhecer e um filme sobre um monte de guerreiras descendo a porrada numa galera me fez pensar mais sobre isso. Só aí, o filme já me ganhou demais.

A Mulher Rei é um filme realmente bom, tem uma estrutura bastante básica, mas que funciona de maneira excelente. Além da Viola Davis, Lashana Lynch como uma das guerreiras, Thuso Mbedu como a jovem Nawi (que parece uma CRIANÇA no filme, mas descobri ter 31 anos e fiquei chocado) e John Boyega como o rei Ghezo, estão muito bem no filme. Boyega que inclusive tem um discurso em dado momento do filme que me emocionou LEGAL. Não tava esperando aquilo.

Em resumo, assista A Mulher Rei. Baita filme. Viola Davis é BRABA DEMAIS!