Sami Zayn e a falta de um protagonista que preste na WWE

A WWE tem um problema. Na verdade, eles têm vários, mas existe um bem claro e que, a cada dia que passa se torna mais evidente. Ao contrário dos tempos de glória, hoje em dia, a empresa não tem um protagonista de verdade.

Sim, apesar de existirem John Cena, Roman Reigns e o escambau, não existe alguém por quem os fãs podem torcer de verdade. E sempre que isso começa a acontecer, a empresa parece que dá um jeito de eliminar qualquer chance daquela pessoa ter sucesso com o público. Isso acontece, geralmente, porque esse não era o plano da WWE, então, em vez de apenas aproveitar o embalo e ganhar dinheiro em cima daquilo que o povo quer, eles preferem empurrar alguém que eles já tinham planos e dane-se.

Um bom exemplo disso é Dean Ambrose. Integrante da SHIELD, uma das maiores equipes da história da WWE, o cara tinha tudo pra ser um astro. Ele sabe lutar, tem carisma, sabe falar, é o pacote completo. Mas sempre foi colocado de lado para os outros integrantes brilhar.

Seth Rollins foi o escolhido como o grande vilão e Roman Reigns seria o novo grande herói da companhia. Ambrose simplesmente existiria no midcard. Só que o público gosta dele e, por causa disso, ele sempre causa as maiores reações, aparentemente vende merchandise muito bem, vide a quantidade de camisetas diferentes que são lançadas.

MESMO ASSIM, as storylines colocam Roman Reigns como superior, sendo que, recentemente, colocaram o Ambrose com ele para tentar dar aquela animada. Meio que funcionou, mas ainda parece forçado.

Parece que a WWE não consegue mais criar um protagonista para seus programas, um lutador que faça com que TODO MUNDO torça por ele, se sinta investido na sua história, fique feliz quando ele ganha e triste/puto quando ele perde. Alguém que pode ser o babyface que leve a empresa para uma nova era, que pode ser adorado pelos fãs e pelo público infantil pelo simples fato de ter um personagem que parece ser uma boa pessoa no meio de um covil de cobras.

Só que a WWE já tem alguém que se encaixa em todas essas categorias:

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Um wrestler “genérico”

Rami Sebei começou sua carreira como wrestler em 2002, atuando no Canadá. Com o passar dos anos, ele desenvolveu uma reputação cenário de luta livre independente, utilizando uma máscara e ganhando fãs por onde passava.

Apesar de até hoje não admitir que são a mesma pessoa (alguém tem que deixar o kayfabe vivo), Sebei ganhou o mundo como El Genérico, um lutador que claramente não era mexicano (apesar de ser anunciado como vindo de Tijuana, México), sem saber direito falar espanhol ou inglês, mas incorporando golpes e trejeitos de lucha libre, misturado com um wrestling mais técnico.

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Depois de anos ganhando o público com sua habilidade no ringue e quase sem nenhuma mic skill (o lance da língua mal falada e tal), Sebei recebou, em 2013, uma oportunidade de ir para a WWE. Lá, apesar de ter lutado em dois house shows mascarado, resolveram que o cara tinha uma cara que funcionaria sem máscara. E assim, nasceu Sami Zayn.

A jornada para se tornar a face do NXT

Quando o Sami Zayn estreou de vez no NXT, ele provavelmente foi o primeiro “indie darling” que assinou com a WWE e chamou atenção da internet. Outros astros como Dean Ambrose (Jon Moxley), Seth Rollins (Tyler Black) e Kassius Ohno (Chris Hero) já faziam parte do então “developmental system” da WWE, mas a contratação do Zayn parecia algo grande.

O cara tava alcançando o seu auge nas indies e tinha certo potencial para a WWE. Na sua estreia, Zayn venceu do ex-campeão de Tag Team Curt Hawkins. No final do mesmo programa, Cesaro, que estava se despedindo do NXT na mesma época, apareceu falando que não existia ninguém ali para vencê-lo. O Zayn aceitou o desafio e, numa cagada, venceu. Tomou um cacete logo em seguida, mas parecia que existiam planos pra ele.

Durante alguns meses, o Zayn foi se acostumando com essa sua nova faceta, desenvolvendo suas mic skills e se mostrando diferente dos outros lutadores pelo simples fato de que parecia uma pessoa de verdade.

Na WWE (e em várias outras promoções pelo mundo), os lutadores muitas vezes não parecem agir e falar como uma pessoa de verdade. São personagens, versões exageradas de alguém. O Zayn é simplesmente o Sami Zayn. Você acredita no que ele fala, o jeito que ele reage, seja em entrevistas ou no ringue.

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E parece que tudo isso aconteceu no mesmo certo. Durante anos, o NXT foi tratado como um reality show bizarro dentro da WWE, em que lutadores recém contratados pela empresa participariam de uma competição para se juntar à empresa.

A primeira temporada (sim, o NXT era dividido em temporadas) teve a estreia de lutadores como Wade Barett e Daniel Bryan. Enquanto isso, a empresa utilizava pequenas companhias de wrestling para desenvolver as estrelas do amanhã.

Por algum tempo, essa empresa foi a FCW, situada na Flórida. Quando Paul Lasveque (Triple H) assumiu esse setor da empresa, desenvolveu o WWE Performance Center, um centro de treinamento de ponta para seus novos atletas, repaginando o NXT como um programa de desenvolvimento, para os wrestlers aprenderem como funciona a WWE.

Por meses, NXT era um programa meio escondido, disponível na internet e visto por meia dúzia de gatos pingados. Até que teve uma luta que fez quem nem sabia direito o que o NXT tinha virado prestar atenção no negócio.

Em 21 de agosto de 2013, foi ao ar o episódio de NXT que tinha a luta entre Sami Zayn vs Antonio Cesaro. Era uma “2 out of 3 falls”. Basicamente um “Melhor de três”. Naquela luta, Sami Zayn e Antonio Cesaro mostraram que o melhor combate daquele ano não aconteceria no Raw, Smackdown ou Wrestlemania. Ela aconteceria num pedacinho da Full Sail University, na Flórida, na frente de umas cento e poucas pessoas. Duvida?

Depois disso, parece que o NXT começou a receber uma atenção maior, até porque o Triple H tava realmente transformando tudo aquilo no seu “bebê”.

Com o lançamento da WWE Network, o programa começou a ser visto por um número maior de fãs, tendo o último combate entre Zayn e Cesaro como primeira luta a ser transmitida ao vivo no serviço (no especial NXT Arrival).

Apesar de o NXT já ter o seu campeão (Bo Dallas e, em seguida Adrien Neville), o Sami Zayn se tornou a constante no programa.

Um dos NXT Five

O ano de 2014 foi ótimo para o NXT, muito por causa de algumas contratações de peso da WWE. KENTA (Hideo Itami), Fergal Devitt (Finn Bálor) e Kevin Steen (Kevin Owens) foram contratados pela empresa, trazendo uma quantidade enorme de fãs e formando, ao lado do Sami Zayn e do Adrien Neville os “NXT Five”.

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Cinco lutadores de destaque ao redor do mundo e que estavam chegando à WWE. Só que, entre todos eles, aquele que trazia o público que assistia ao NXT todas as semanas no seu canto era o Sami Zayn.

A face do NXT

Ao longo de um ano e meio, o Zayn foi protagonista de uma história que não era necessariamente o ponto principal dos programas, mas que apresentava uma evolução tão boa que você não conseguia fazer outra coisa além de torcer por ele.

Desde o seu momento tentando se provar como alguém que merecia estar ali, conseguindo o respeito de Cesaro, passando pela sua busca pelo cinturão do NXT, o “NXT Universe” viu no Sami Zayn a face do programa.

Crianças, adultos, idosos, homens, mulheres, todos torciam pelo Sami Zayn. Durante o último especial de 2014, NXT TakeOver: [R]Evolution, Zayn viu Kevin Owens fazer sua estreia na WWE. Os dois eram amigos há anos, desde o início de suas carreiras, lutando juntos quando ainda eram El Genérico e Kevin Steen.

Na mesma noite, Owens venceu BEM e logo caiu nas graças do público. Todos gritavam FIGHT OWENS FIGHT. Durante a luta pelo cinturão, o público vaiava Neville, que não tinha feito nada realmente ruim, mas apenas por estar contra o herói de todos, Sami Zayn.

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Em dado momento da luta, Zayn vê a oportunidade de ser campeão acertando com o cinturão na cabeça do Neville, já que o juiz está desacordado. Em um momento de dúvida, ele quase tomou esse caminho mais fácil, que vários outros babyfaces da WWE já tomaram, mas ele decidiu que não.

Ao som do coro de fãs que lotaram a “NXT Arena”, que pediam para ele não fazer aquilo, ele jogou o cinturão para o lado e quase perdeu a luta. Só que ele se mostrou superior e se tornou o campeão.

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TODOS festejaram. Era a culminação de uma jornada de um ano e meio. Outros lutadores foram ao ringue cumprimentá-lo. Em especial, Kevin Owens, que abraçou o amigo.

Só que, repetindo algo que já tinha acontecido na época Genérico/Steen, isso aconteceu:

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No mesmo momento, Owens virou o maior heel do NXT. Ele atacou o herói do povo. Eles viriam se enfrentar novamente algumas vezes, com o Zayn perdendo o seu cinturão por não ser tão impiedoso contra o antigo amigo.

Era a história perfeita para mostrar a superação do campeão antes de ele finalmente ir para o Raw e Smackdown, lutar contra John Cena, Randy Orton e afins.

Um belo exemplo disso é a breve participação dele no Raw, durante o Open Challenge feito pelo John Cena. Durante toda a noite, o público de Montreal, cidade natal do Zayn, gritava pelo seu nome, na esperança de ele aparecer.

Quando de fato isso aconteceu, o lugar foi à loucura:

É válido lembrar que, durante a entrada, ao levantar o braço pra galera ali no canto do ringue, o Zayn agravou um problema com o seu ombro. Mesmo assim, ele fez a luta inteira contra o Cena e ainda participou de um NXT Takeover.

Logo em seguida à luta, foi anunciado que Sami Zayn precisaria de uma cirurgia para reparar o dono ao seu ombro, tendo que ficar de 6 a 8 meses parado. Assim, 2015 ficaria sem Sami Zayn, seja no NXT ou no main roster.

O retorno

Por que eu falei de toda a passagem do Sami Zayn no NXT quando o assunto era o problema da WWE não ter um protagonista que preste e que o público apoia? Porque, dentro da própria empresa, isso já foi feito recentemente e já conta com um lutador pronto para isso.

Enquanto outros wrestlers se machucam ou apenas tiram férias, Raw e Smackdown têm níveis de audiência cada vez mais baixos, enquanto a WWE tenta empurrar a todo custo Roman Reigns como o astro supremo, o “top dog” da empresa, mesmo com grande parte do público o rejeitando.

Quando outros lutadores começam a se destacar, a empresa arruma um jeito de puxar o tapete dessa galera, em detrimento do push do Reigns. Caso a WWE ouvisse os fãs, CM Punk teria sido main event de algum Wrestlemania. Dean Ambrose já estaria no seu segundo reinado como campeão da WWE. Só que não é isso que está acontecendo.

Mas existe um período de mudança da WWE chegando e isso é inevitável. Caso as coisas continuem do mesmo jeito, a realidade pós-Wrestlemania (convenhamos, dificilmente as coisas vão mudar antes disso) pode trazer um novo status quo para o main roster.

Quase como se fosse uma jogada do destino, no episódio do NXT liberado no dia 25 de novembro, a seguinte vinheta foi exibida:

Inicialmente, você pode pensar “Pô, finalmente! Agora vai!”. Só que aí você começa a ver a reação do público pela internet. Seja em fórums, Twitter ou Reddit, uma quantidade absurda de gente vê o retorno do Zayn como o momento da virada.

O momento em que um babyface de verdade pode se destacar e virar a nova face da empresa. Alguém que já mostrou ter a habilidade de criar uma conexão com todo o tipo de público, consegue lutar bem e, quem sabe, seja o substituto que o John Cena já disse em algumas entrevistas que está esperando para tomar o seu lugar.

De todos os wrestlers que apareceram nos últimos anos, ele é o mais “John Cena” sem a parte “sou o Superman” de todos.

O anúncio do retorno dele diz “NXT”, então é possível que a WWE esteja planejando aquilo que todos esperam acontecer: ele volta no próximo Takeover, que acontece em dezembro. Durante o Royal Rumble, em janeiro, ele elimina o Owens (que foi quem “quebrou” ele), arruma treta pro Wrestlemania, fica no main roster.

Isso ou algo completamente retardado, vide que esse é o jeitinho de operar da WWE ultimamente.

A mudança

Talvez o Zayn de fato seja o substituto que a WWE precisa para o John Cena. Talvez, o caminho dele realmente o leve para ser o babyface principal da WWE.

Mas a principal coisa que deve ser tirada disso é que, com alguém como o Zayn nesse papel, a WWE finalmente pode mudar.

Assim como aconteceu nos períodos de transição de Hulk Hogan para Bret Hart e Shawn Michaels, depois para Stone Cold Steve Austin e geral na Attitude Era, seguida por John Cena, Batista, Triple H, Randy Orton, até a atual, talvez com alguém realmente novo, as coisas podem mudar e levar a empresa (e todo o universo do wrestling no embalo) para uma nova era.

Não uma em que apenas uma pessoa vai ter destaque, mas todo um grupo de lutadores e lutadoras possam ter o seu lugar ao sol.

E talvez tudo o que precisa para isso acontecer é um canadense com cara de bobo e que faz todo mundo gritar Olé!

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